Kinoforum Crítica Curta 2008

Oficina de crítica do 19º Festival Internacional de Curtas-metragens de SP

Sofia chora, eu também

Segunda, 25 de Agosto de 2008

Durante a sessão de “Sofia”, curta de Alexandre Franco, a protagonista de mesmo nome estava descontente com sua vida amorosa e eu, com o celular que tocou e permaneceu ligado durante a exibição, sem falar dos cochichos, em plena Cinemateca. Mas “Sofia” merecia atenção, então tentei me desligar da “vizinhança” e dialogar com o curta.

Não deu muito certo. Com um roteiro linear chato e cansativo, ele não apresentava novidades durante a exibição, nada acontecia. Alguns cortes foram feitos de maneira brusca e em certos momentos a câmera trepidou. A fotografia, sim, era linda e comunicava mais que o texto em si.

Mas como cinema é arte e arte é subjetividade, identidade e interpretação pessoal, quando há, convido a todos para que assistam ao curta e tragam novas reflexões e novos olhares. Diferentes deste meu olhar em formação.

Uma coisa “Sofia” me provocou: inquietação. Já não conseguia ficar na poltrona, naquela pasmaceira, sentindo sua solidão, sua vida sem graça e sem atitude. Descobri depois, no bate-papo com o diretor, que sua intenção com o filme era passar esse momento de “Sofia”, de solidão, tristeza, abandono. Acho que deu certo nesse sentido: a solidão me afetou. (Karla Maria)

“Sofia” está na Mostra Brasil 9

Cortes precisos na memória

Segunda, 25 de Agosto de 2008

A sincronicidade ou a não sincronicidade entre os temas das filmografias das sessões no festival é outra particularidade do discurso formado dentro da narrativa reflexiva do espectador a cada sessão.

Com o montante de curtas apresentado em uma sessão de uma hora, mesmo que possuindo características diferentes, é quase inevitável que ocorram correlações dedutivas e sugestivas, feitas pela análise tanto consciente como também inconsciente das variações de linguagens apresentadas pelos filmes. Assim, são concebidas várias ondulações reflexivas que influenciam na forma de recepção.

Mesmo havendo um intervalo entre um curta-metragem e outro, na intenção de descansar os olhos e limpar a imaginação, a tendência da montagem de uma reflexão unificada da sessão é quase que inevitável na experiência vivida pelo espectador, tanto nos debates após as exibições como nos espaços externos às salas de projeções.

Alguns filmes saltam aos olhos, mantendo assim um corte preciso na memória do espectador, na elaboração de sua crítica reflexiva, tanto interior como exterior, sobre suas sensações e reflexões vividas nas sessões do festival.

Assim como na sessão Mostra Brasil 3, em que dois filmes me chamaram a atenção. Em “Cocais, a Cidade Reinventada”, de Inês Cardoso, a poesia imagética junto à narrativa verbal e sonora do filme proporcionava uma sensação de se estar vivenciando e participando do processo de uma constituição de um outro tipo de linguagem, na reinvenção de uma cidade, de um diálogo, da realidade ou loucura e na concepção de nosso sentidos na formação de conceitos sobre o mundo que nos cerca.

Já em outro filme da mesma sessão, “Tarabatara”, de Julia Zakia, revela-se de modo poético o cotidiano de uma comunidade de ciganos em suas instalações provisórias no espaço. É deflagrado pela fotografia um outro tipo de olhar, tanto pelos ângulos e pela beleza das tomadas de câmera como também pelos pontos de vista que essas comunidades nômades desenvolveram na linguagem perante a linearidade e condicionamento de vida da sociedade contemporânea, reinventando e mantendo assim uma outra forma de conhecer e interagir com o mundo.

Nele e nos outros filmes dessa mesma sessão de temática indígena, o corte cultural e o choque de cultura se transformam em principal conflito da constituição das imagens e linguagens dos filmes, direcionando o nosso olhar perante as inúmeras formas de contatos culturais e de se viver e entender a vida.

A experiência do conjunto de filmes com suas linguagens específicas e de pessoas com suas deduções reflexivas diferentes proporciona um troca de idéias que alcança diversos pontos de vista sobre a linguagem cinematográfica como um todo e dos sentidos que através dela nos fazem refletir sobre as diversas linguagens que os sentidos humanos podem alcançar. (Cristiano Feitosa do Vale)

“Cocais a Cidade Reinventada” e “Tarabatara” estão na Mostra Brasil 3.

Depois do ovo, a câmera

Segunda, 25 de Agosto de 2008

É difícil assistir a filmes de temática indígena que não estejam contaminados pelo olhar dos que não são índios. Mesmo se o projeto possui a melhor das intenções, sempre existe um traço, um indício facilmente percebido do olhar de quem vem de fora. Como um olhar curioso que estranha tudo aquilo que vê. A câmera já é um dispositivo que não pertence à cultura indígena. Construída de acordo com os preceitos da “perspectiva artificialis”, a câmera de cinema é neta da pintura renascentista e filha direta da fotografia. A perspectiva pretende objetivar a realidade, mas ela organiza a representação do que conhecemos por realidade de acordo com uma ideologia. Não existe imagem inocente.

Por isso, é sempre delicado falar de curtas que têm por objetivo levar a produção de filmes para populações excluídas (tanto os indígenas, como as populações das periferias das grandes cidades). Até que ponto essas populações podem perceber que o instrumento que utilizam para registrar a realidade que vivem está contaminado ideologicamente? Uma questão que pode dar um bom debate. Mas a intenção é falar (levando em conta esse ponto de vista) sobre o curta “Prîara Jõ. Depois do ovo, a guerra”, de Komoi Panará.

Gravado com uma câmera de vídeo na aldeia dos Panará, esse intrigante curta mostra a preparação de garotos indígenas para a guerra. Tudo é uma grande brincadeira, os garotos se reúnem,se pintam, escolhem as armas e se preparam para a guerra contra os inimigos. O imaginário desses pequenos guerreiros está contaminado pelas histórias do passado, não existe mais a guerra. Komoi Panará fez um trabalho muito interessante; a todo momento, os garotos se dirigem para a câmera e contam o que vai acontecer. Até o deflagrar da guerra de brincadeira.

É interessante notar como não existe a preocupação de “esconder” a câmera, esconder que se trata de um filme. Nós, espectadores, sabemos que se trata de uma brincadeira e os pequenos Panarás também. Entramos no jogo deles, nos divertimos e damos risadas juntos. E é fascinante ver como as crianças da aldeia Panará brincam na floresta, se misturam com a vegetação. Livres e sem medo, elas diferem muito das crianças das selvas de pedra que, cada vez mais, são trancadas em caixas de concreto e forçadas a brincar com a televisão para serem protegidas de nossos medos. (Renato Batata)

“Prîara Jõ. Depois do ovo, a guerra” integra a Mostra Brasil 3.

O homem, a menina e o cineasta-sanduíche

Segunda, 25 de Agosto de 2008

Ainda não compreendi o que o cineasta, a menina e o homem-sanduíche têm a ver um com o outro. O cinema onde as personagens vagam, vagam e nada acontece não é novidade, muito menos intrigante. Se em longa-metragem é difícil encontrar algum significado em andanças sem rumo ou motivo, em um curta-metragem de apenas 14 minutos é bem impossível.

Um cineasta vaga atrás de incentivo financeiro ou um mínimo interesse por seu filme; uma menininha que não se sabe de onde veio também perambula, sem objetivo algum; um senhor com uma placa do tipo “compro/vendo ouro” vaga, talvez por ser esse o seu ofício, caminhar vestindo uma propaganda. E o que acontece? Eles se encontram num ponto de ônibus, se comunicam breve e superficialmente, e pronto, mais uma história é contada sem nada para contar, na verdade.

É característico da produção brasileira de curta-metragem copiar uma forma de outra cultura e outra história, sem pensá-la antes de fazê-la. Fazer é fácil, uma câmera na mão por vezes resolve a dificuldade. Mas pensar pede mais; pede tempo e estudo, pede uma idéia conceitual e cheia, não um vazio em formas. Copiar a forma não significa copiar o conceito. E se o conceito está distante, não é impossível alcançá-lo e fazer dele cinema. A distância se vence refletindo, principalmente na casa da reflexão, a universidade. Afinal, uma produção que pensa a si própria antes da feitura constrói formas sólidas e densas que funcionam, e não o contrário. (Marina Bottega)

“O Cineasta, a Menina e o Homem-Sanduíche” está no Panorama Paulista 2.

Alergia de gente

Segunda, 25 de Agosto de 2008

É comum conhecermos pessoas com alergias das mais diversas. Plantas, animais, alimentos, quase tudo pode desencadear uma alergia. E pessoas? É sobre isso que trata “Raízes Ocas”, de Francisca Olaeta e Diego Riquelme. Um pai obsessivo mantém sua filha sob um duro regime e só possui olhos para sua orquídea. A filha cuida de um coelho com muito carinho. O pai tem alergia ao coelho, a filha à orquídea. Essa relação é que vai nortear o desenvolvimento do filme.

Construído de maneira habilidosa, o filme demonstra o conflito entre pai e filha através de pouquíssimos diálogos. Isso reforça a fria relação existente entre os dois personagens, além de ser sempre fascinante assistir a filmes que privilegiam a imagem ao invés do diálogo. “Raízes Ocas” é daqueles filmes que por mais que você já preveja o desenrolar da estória, algo novo aparece. O conflito entre os dois personagens se desenrola e fica cada vez mais grave. O personagem do pai é obsessivo por limpeza, usa luvas, adora a simetria. Já a filha tem medo do pai, se corta, quer proteger o coelho a qualquer custo e de repente se vê na mira de uma espingarda empunhada pelo próprio pai.

Essas raízes ocas que a sociedade contemporânea constrói podem se transformar na ruína do que conhecemos por relações humanas. O curta chileno nos alerta para o distanciamento dos relacionamentos das pessoas, que muitas vezes dão mais importância para bens materiais ou obsessões pessoais do que para outros seres vivos. A partir disso, o curta abre espaço para reflexão não só sobre relações familiares, mas também sobre nosso papel como agentes nessa sociedade de raízes ocas. (Renato Batata)

“Raízes Ocas” está no programa Latinos 3.

A contemplação das sombras

Segunda, 25 de Agosto de 2008

Uma colina, uma casa, um homem e o céu em tom esverdeado. Um retorno à contemplação da imagem. Isso é “Ouço seu Grito” (“Ahendu Nde Sapukai”, no original), de Pablo Lamar. Apenas um plano-seqüência, a câmera fixa, contra a luz. A não ser pelo céu, que tem tons levemente esverdeados, tudo se transforma em sombras. A colina, o homem, os animais, a casa, como se o cinema voltasse aos seus primórdios, o teatro de sombras.

Nesse surpreendente curta de 13 minutos, o tempo é o grande personagem e a morte sua intérprete. Lamar nos transporta através das sombras para um tempo distante da realidade urbana. Os sons do campo, o tempo lento que segue o curso da natureza e o canto do cortejo fúnebre. Elementos que se completam com o desvanecer da imagem que se apaga lentamente, custando em deixar a tela. O homem, que assiste à vida e à morte passarem, se projeta em sombras. Desenhado pela luz, ele espera o dia em que o canto será entoado em sua homenagem.

A proposta é audaciosa; poucos conseguem manter a atenção e expectativa do público durante tanto tempo com apenas um plano-seqüência de câmera fixa. O êxito de Lamar é justamente a capacidade de manter o ritmo das ações que ocorrem na colina, de maneira que esperemos pacientemente pelo que vai acontecer. Enquanto a imagem desaparecia na tela (tão lentamente que é possível ver os contornos da colina e da cabana quase até o fim da projeção), um profundo silêncio tomou conta da sala. Aquele breve silêncio que dura até os créditos, mas que possuía algo de especial. Como se todos ouvissem seu grito, o silêncio é interrompido pelas merecidas palmas ao curta de Lamar. (Renato Batata)

“Ouço seu Grito” está nos programas Latinos 3 e Semana da Crítica.

Abrindo caixas de sapatos

Segunda, 25 de Agosto de 2008

O festival deste ano organizou uma sessão inteira para um só diretor, o argentino Gustavo Taretto. A obra de Taretto finge ser sobre a cidade, mas é sobre indivíduos. Sobre desejos e perdas, sobre a identidade que quer ser outra, mas nunca encontra ponto de fuga para a mudança. “Medianeras” (2005) desenha melhor essa constante do diretor: os milhares de edifícios cravados na Buenos Aires contemporânea guardam seus habitantes em mini-apartamentos, as “caixas de sapatos”, escondendo-os de si e dos outros.

As paredes guardam sentimentos de perda, vontade de outra vida, outra identidade; barram vontades de mudança que nunca vão ser mais do que desejos silenciosos e solitários. A câmera de Taretto, porém, quebra a parede e mostra um ser humano dentro do concreto, um sentimento guardado em caixa que não consegue sair, nem com todas as virtualidades possíveis de hoje.

A solidão profunda e a todo instante é a triste condição contemporânea dessas grandes capitais; uma condição realmente pesada, por ser carregada integralmente por cada um de nós, sem poder ser dividida. Esse peso, porém, é diluído por um humor leve nos curtas de Taretto, mas o humor nunca apaga a tristeza da realidade, só a torna um pouco mais suportável.

Apesar do riso, as marcas ficam: as meninas tomando sol no terraço continuam nas suas vidas pequenas, nunca vão a Cuba; o velho desempregado não conseguiu os 100 pesos necessários, e foi preso; o casal em caixas de sapatos diferentes só se encontram na virtualidade, pois o real bloqueia um verdadeiro encontro. Somente Martín de “Hoy No Estoy” (2007) parece escapar desse universo pesado da realidade. Mas o fantástico dessa história talvez tenha um sentimento muito presente na vida, afinal, bom seria poder esconder-se de tudo, passar despercebido, menos para aquilo ou para aquela pessoa que escolhi ver e (para a qual) aparecer. (Marina Bottega)

“Las Insoladas” (2003), “Cien Pesos” (2003), “Medianeras” (2005) e “Hoy No Estoy” (2007) estão no programa especial Gustavo Taretto.

“El Deseo” aos 50

Domingo, 24 de Agosto de 2008

O que sente uma mulher aos 50 anos? Solidão, amor ou a falta dele, ondas de calor? Sente gratidão por sua família, netos, profissão, cachorro e marido? Essas respostas não precisam ser excluídas, todavia, o que a mulher aos 50 sente é desejo, pelo menos segundo o curta mexicano “El Deseo”.

Essa vontade de conseguir algo, a ânsia de satisfazer certos apetites, o impulso sexual: é disso que trata o curta, do desejo feminino em redescobrir sua sexualidade, redescobrir a si mesma. Ana, a protagonista, é uma mulher de beleza comum, tem sua casa e suas roupas comportadas. Certa manhã, vê seu marido partir sem retorno.

O curta consegue atravessar a alma dessa mulher, transmitir suas angústias, dores e sofrimentos tão presentes nas almas femininas da sociedade, que por vezes escondem seus sentimentos por submissão, medo, vergonha ou mesmo por posturas arraigadas pelas culturas e religiões.

Durante os 13 minutos de exibição, o curta faz um caminho inverso ao das histórias clássicas de superação e elevação da auto-estima; a diretora e roteirista do filme, Marie Benito, vai na contramão. Ana não procura o marido para se reconciliar, não procura as amigas, o chocolate ou o travesseiro; ainda magoada e abandonada, ela decide quebrar alguns rótulos ao buscar, em seu corpo, o prazer de novamente ser uma mulher, que precisa e deseja ser amada.

Para superar a depressão e a solidão da cama, Ana — em uma cena leve e delicada — busca em si o prazer; suas lágrimas já não são de tristeza, e sim de êxtase. Êxtase pelo orgasmo e mais, por ser dona de si mesma, responsável pelo seu sorriso, pelo seu corpo e por suas linhas de expressão.

Após entregar-se ao seu corpo e seus prazeres, Ana se entrega a um desconhecido; foi em um banheiro público que a protagonista se desprendeu das normas de conduta e boa moral. Resta-nos saber se ela retornará a ligação do marido arrependido ou permanecerá dona de si. (Karla Maria)

“El Deseo” está na Mostra Latino-Americana 1.

Sobre meninos e aranhas

Domingo, 24 de Agosto de 2008

Seu primeiro plano é vertiginoso. A câmera expande suas fronteiras visualizáveis a partir do chão de pedregulho para se pendurar pelo penhasco urbano do terraço de um prédio. De pronto já estamos imersos nesse mundo próprio construído pela eleição de um olhar tão peculiar. Olhar dos que transpõem os limites invisíveis com os quais as cidades se fazem construir. Ofertando asas ao documental, a sensível direção de Mariana Lacerda aposta justamente nos terrenos descobertos a partir de seus sobrevôos, surpreendendo e arrebatando os olhares que acompanham a escalada de vida de seu personagem: Tiago, o Menino-Aranha.

Meio Peter Pan, meio Robin Wood – não devido a suas habilidades extraordinárias ou práticas de delinqüente romântico, mas porque inteiramente humano –, Tiago é reconstruído a partir de relatos daqueles que tomaram contato não só com sua curta aventura pela Terra, mas também com aquilo que preferimos não enxergar nos que detêm capacidades fora do comum: suas fraquezas e vulnerabilidades.

A grandeza discursiva do filme reside na elucidativa trama que tece ao lançar mão das linhas do lado B de seu “herói”, ao não escolher essas feridas como ponto de partida para uma trajetória fadada ao fracasso, mas ao revelar a riqueza e o preço de uma existência inclassificável. Dessa forma, a direção se vê liberta, estética e discursivamente, de uma tradição “mosaicada” do menor infrator. Justifica-se então a preferência pelas belíssimas tomadas aéreas da arquitetura de Recife a planos fechados em depoentes, pelas falas calmas e consistentes embaladas por notas de piano a exasperações de lamentação ou provocação, pelo respeito à figura daquele que nem sabe que virou filme.

Ainda mais penetrante que seu primeiro plano, o último extermina qualquer dúvida acerca da veracidade da história contada: lá está um pequeno Tiago que nos olha tímido pela lente de uma câmera caseira em momento de sublime descontração. A prova de que a visão infinita de liberdade de um garoto capaz de escalar prédios de 33 andares pôde vencer as manchetes sensacionalistas e encontrar uma pista de vôo pela qual decolar.

Sendo assim, da mesma forma que Tiago põe em xeque a arquitetura do medo sob a qual sobrevivemos, “Menino-Aranha” questiona um fazer audiovisual que, na mesma medida em que é capaz de trazer ao mundo um Michael Phelps, pôde disseminar uma lenda urbana pelos andares, escadarias e parapeitos recifenses. (Yuji Kawasima)

“Menino-Aranha” integra a Mostra Brasil 2.

Cinco minutos de sussurros sufocantes

Domingo, 24 de Agosto de 2008

Diariamente a mídia “bombardeia” seu público com notícias de todos os gêneros, línguas e lugares. Envolvidos com a correria “humanista” (que engloba trabalho, estudo, família, dinheiro, trânsito, amigos…), recebemos essas notícias sem nenhum tipo de reação ou discussão. Sem analisar ou sentir que humanos como eu e você estão vivendo naquelas circunstâncias noticiadas mundialmente!

Cenas de guerras, massacres, violência, racismo, preconceito e doenças em geral passam a ser mais um capítulo da “novela das oito”!

Mas, em um instante, a sala de cinema está repleta de olhos fixados na telona. As luzes se apagam e o silêncio domina o local. Inicia-se a projeção. O diretor César Meneghetti, em cinco minutos, conquista a atenção do público. Olhares atentos nas imagens sufocantes de guerras!

Aquele momento torna-se único. “Les Terra’s di Nadie” (As terras de ninguém) sufoca o público presente. A narração sussurrada traz “um tapa na cara”, como se dissesse: Acorda! Levanta! Olha o mundo ao teu redor verdadeiramente! Deixa de ser egoísta e viver em teu mundinho frio e capitalista!

São cinco minutos de sussurros penetrantes de diferentes línguas, cinco minutos de história, cinco minutos de protesto, cinco minutos de incômodo, cinco minutos de vida! São cinco minutos! Apenas cinco minutos! Cinco minutos.

“… e na hora em que a televisão brasileira distrai toda gente com sua novela é que Zé põe a boca no mundo e que faz um discurso profundo…” (canção “Zé do Caroço”, Leci Brandão). (Tatiana Redígolo)

“Les Terra’s di Nadie” está na Mostra Brasil 1.