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Diagnóstico completo de um espectador médio saudável

“Agente infectante”: Mostra Latino-Americana 3.

“Vias de contaminação”: olhos e ouvidos.

“Descrição pormenorizada do agente”: utiliza como vetores cineastas com quadros agudos de pretensão, desprovidos de uma dieta balanceada com propostas e linguagens contundentes. Esses cineastas costumam administrar com superdosagem os elementos denominados “tempos mortos” — um recurso muito expressivo e poético, quando bem utilizado por indivíduos não-infectados — e, como resultado, as narrativas apresentam distúrbios bastante característicos, como dificuldade de locomoção, alta concentração de incongruências e esvaziamento das substâncias essenciais. Tais distúrbios configuram-se numa afecção crônica e gravíssima para um formato como o curta-metragem.

Verificou-se também dificuldade de escrita nos roteiros, insuficiência na resolução dos dilemas propostos e mau funcionamento dos aparatos técnicos.

O agente constitui-se de 5 (cinco) elementos principais, a saber:

- “Colchones” (Colchões): ataca através da inabilidade radical da fotografia, baixa percepção do áudio, diálogo inoperante e interrupção repentina do tratamento narrativo;

- “El Mar” (O Mar): componente menos maléfico, mas que atua através da hemorragia perigosa de sentimentalismo piegas, produto que deve ser administrado com cautela;

- “Silencio En La Sala” (Silêncio, Por Favor): um dos componentes mais infecciosos, apresentando um tempo longo de incubação sem desenvolver qualquer resquício de sintomas, mas, a longo (e interminável) prazo, pode-se verificar enfraquecimento do roteiro e inchaço de planos sem qualquer significado;

- “Roma” (idem): tecnicamente bastante eficaz, este componente migra incessantemente sem saber que região do corpo atacar, agregando planos altamente estéticos, porém desvinculados do conjunto funcional da obra, cuja proposta não apresenta a evolução esperada;

- “Los Extraños” (Os Estranhos): inofensivo contra indivíduos já vacinados contra clichês. Hospedeiro do vírus denominado “Hollywood”, este componente visa provocar calafrios e olhos arregalados, mas estudos comprovam que não afeta nem criancinhas.

“Sintomas apresentados pelo paciente contaminado”: impaciência, tédio, monotonia, dificuldade de concentração e sonolência excessiva.

“Tratamento recomendado”: sabe-se que os sintomas não são permanentes, e costumam passar em 82 minutos. Caso haja reincidências, o paciente não deve se preocupar: basta ir à farmácia mais próxima e absorver outras mostras do Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo (vide bula). (João Paulo Putini)

“Colchones”, “El Mar”, “Silencio En La Sala”, “Roma” e “Los Extraños” estão na Mostra Latino-Americana 3.

No ritmo da vida

O ritmo é intrínseco a “No Tempo de Miltinho”. Nas palavras da pessoa que dá nome ao filme: “a vida é um ritmo”. Será que vivemos todos em um grande musical?

Em seus quase 20 minutos de duração, o filme de André Weller é dinâmico, segue o tom da música de seu protagonista. É explicativo em sua simplicidade e cria soluções engenhosas. Nunca a manufatura de um pandeiro foi tão gráfica e divertida como essa, que faz uso de animação.

Assim como Miltinho, o filme tem seu tempo, o protagonista vai revelando-se aos poucos, nossos ouvidos vão se acostumando com sua sonoridade, com sua história, com seu compasso. Faz o papel de um contador de histórias, nos leva para outro universo. Imagens em preto-e-branco e o som da vitrola nos acompanham nessa viagem.

Como em uma música, em que todos os elementos devem se encaixar, o curta faz uso de entrevistas, imagens de arquivo e outros artifícios que invadem os olhos do espectador sem cansá-lo. Um imenso trabalho de pesquisa é dissecado na nossa frente e a figura carismática de Miltinho vai se revelando aos poucos.

Personalidades do cenário da música brasileira falam com afeto e carinho de Miltinho que, humilde, se considera “um mero cantor de samba”. Na visão do sambista, tempo é ritmo, vivemos em meio aos compassos que a vida nos entrega. Ele olha no relógio e observa, atenciosamente, o ponteiro se mover.

Miltinho está acostumado a dar o ritmo das suas músicas. Agora, é a vida que dá seu ritmo a ele. (Mariana Serapicos)

“No tempo de Miltinho” integra a Mostra Brasil 2.

De repente, um repente

“O Divino, De Repente”, de Fabio Yamaji, mostra as engenhosas pérolas narradas por Ubiraci Crispim de Freitas, conhecido como Divino. Um personagem caricato e cativante, que sabe contar uma boa história. Prende a atenção de todos, além de fazer o público dar boas risadas, com as suas constatações bem-humoradas sobre o cotidiano enigmático.

O repentista fala das suas reflexões utópicas e as animações dão vida aos seus contos, imitam uma atividade muito comum entre as crianças: a partir de vários papéis com desenhos de traços simples, as figuras ganham movimento ao passar as folhas rapidamente.

Os “causos” de Divino lembram as criativas histórias populares, cheias de graça, ironia e encanto. O objetivo não é rir simplesmente, mas brincar com o habitual, tratá-lo de uma forma contemplativa, deixar de ver as coisas de um modo simplório e encontrar realmente beleza no corriqueiro.

O casamento entre o repente, as animações e próprio Divino formam um show de harmonia. Cada elemento se encaixa perfeitamente, montando um espetáculo de cores, sons, imagens e movimento, tudo no seu devido tempo e sem se desviar do contexto.

Ademais, a obra revela o banal naturalmente, sem aquela tradicional compostura ou ponderação, que deixa tudo regrado, metódico e distante. O curta revela que valem a pena os momentos de descontração. Nem sempre a melhor forma é ver os acontecimentos de uma maneira fria, porque não há nada melhor que despertar o lado impulsivo, alegre e colorido da vida, para finalmente conseguir despertar. (Camila Feitosa da Silva)

“O Divino, De Repente” está na Mostra Brasil 6.

Ou tudo ou nada

“Fractais Sertanejos” traz uma reflexão sobre a identidade brasileira, mas, nessa busca pelas origens, acaba negligenciando a identidade do curta como produto audiovisual. O filme se atém a uma pessoa que, apesar de interessante, nos faz perguntar: por que ela?

Ao acompanhar a vida de um operário que se tornou artista, Heraldo Cavalcanti explora esse universo de significados — da vida, da arte. Trata-se de uma soma de física e arte que resulta em cinema. A fórmula é boa, mas o resultado deixa a desejar.

Ao contrário de Eduardo Coutinho, que usa as personagens em favor do todo, da história, do filme em si, “Fractais Sertanejos” é usado em favor desse artista cearense. O personagem não acompanha a narrativa; ele é a narrativa e isso enfraquece os outros elementos cinematográficos.

O diretor opta por redundâncias. Imagens espelham as palavras e pouco fica a cargo do espectador. Enquanto a imaginação do protagonista é reverenciada, a da platéia fica estagnada.

Escolhendo um tema de impacto, “Fractais Sertanejos” se propõe maior do que é. O filme, que começa com humor, deságua em lamento, adotando um tom sentimentalista. Deságua literalmente, já que esse elemento é tão presente na maioria das imagens captadas.

“TudoeNada” é o principal trabalho do artista retratado. Apesar de poético, é vago; na sua tentativa de não explicar a obra, o conceito é lançado, mas nunca resgatado. Nesse sentido, a obra reflete o filme: é tudo e nada. Explora muitos temas, mas não se aprofunda em nenhum.

O mérito de “Fractais Sertanejos” é oferecer um regionalismo ao seu modo, universal, não escancarado. Cavalcanti falou que seu desejo era ir além da seca do Ceará, e conseguiu. É a verdadeira prova de que existem muitos “Brasis” no Brasil. (Mariana Serapicos)

“Fractais Sertanejos” integra a Mostra Brasil 7.

Viagem ao mundo dos significados

“Kogi”, de Paula Gaitán, cumpre sua sinopse e nos faz embarcar por uma viagem imaginária à nação indígena Kogi, localizada na Colômbia, e que nos permite ver resquícios de um povo. A sinopse do filme ainda nos conta: “para os Kogi, um grande espelho divide dois mundos, o das percepções, sensorial, e o mundo abstrato dos significados”.

Essa divisão de mundo mediada por um espelho nos faz lembrar a divisão platônica em mundo sensorial (realidade aparente) e mundo das idéias (realidade verdadeira). Não sei se isso se dá de maneira semelhante com os Kogi. Creio que não, mas o fato é que essa divisão fornece muito do que o filme de Paula Gaitán é feito. São imagens que remetem a sensações, visam atingir a percepção de maneira sutil, sugerindo um imaginário quase onírico.

A utilização de fusões, sobreposições e alterações de imagens visam nos transportar ao imaginário de uma nação indígena que vive numa serra longe de nós. A floresta, seus sons; a água, sua textura; as folhas, suas diferentes colorações. O trabalho sonoro nos dá a impressão de realmente estarmos nesse ambiente, nos faz mergulhar nas imagens e nos proporciona uma experiência sensorial fantástica.

Os Kogi estão presentes o tempo todo. Algumas vezes vemos partes de seus rostos, outras vezes vemos suas fotografias antigas, resquícios de um tempo que não existe mais. Encaro o filme de Paula Gaitán como o mergulho numa cultura que concebe o mundo de maneira diferente e que pode subtrair significados diferentes dos nossos para os seres e as coisas. Uma materialidade fluída, como um fluxo. Muito mais integrada à natureza do que nossas cidadelas de concreto.

As fotografias que surgem na tela parecem carregar aquilo que disse André Bazin sobre o poder da imagem fotográfica de embalsamar o tempo. Impedindo a deterioração daquilo que foi retratado, a fotografia recupera e carrega traços essenciais do que foi disposto em frente à câmera. As fotografias dos Kogi (e consequentemente o filme de Paula Gaitán) remetem a esse tempo embalsamado. São provas irrefutáveis de sua existência e testemunham um imaginário único que estará disponível (num futuro longínquo) aos arqueólogos das imagens. (Renato Batata)

“Kogi” integra a Mostra Brasil 6.

As marcas da história

São pinturas rupestres que surgem logo nas primeiras cenas de “Aqui”, de Torquato Joel. Assim como em “Passadouro” (1998), do mesmo cineasta, vemos os vestígios marcados nas rochas há milhares de anos pelos primeiros habitantes do nosso território. Marcas que sobrevivem ao tempo e testemunham a existência da criação de imagens de povos primitivos.

A sucessão de imagens de “Aqui” nos leva a uma estátua, onde vemos a inscrição: “NEGO”. Em seguida, o filme percorre uma senzala; vemos os vestígios de um lugar de cativeiro e sofrimento. As ruínas parecem ecoar os tristes sons daquele lugar. Torquato Joel nos leva por uma caminho tortuoso, a cana, o melaço, o ciclo que sustentou o país por séculos e que foi responsável por um dos maiores crimes de que se tem notícia: a escravidão dos africanos.

Mas Torquato não quer abordar exclusivamente a escravidão. Antes, quer contar uma história. A história de um lugar. A estátua aponta sua mão e o que vemos são trabalhadores, operários, um açougueiro, um barbeiro, uma cabeleireira, varredores; pessoas que utilizam as mãos para obter seu sustento.

Esses recortes que Torquato nos mostra revelam a faceta mais escondida de um lugar: seu cotidiano. Os gestos repetitivos, a religiosidade, o melaço; elementos que se camuflam no passar do tempo. As imagens de Torquato remetem às imagens rupestres, elas testemunham uma época, um povo e seu imaginário. Nós construímos nossas imagens com dispositivos de tecnologia, os vestígios de nossos dias estarão marcados nos suportes que utilizamos.

O cinema de Torquato não se presta a contar uma história para aqueles que desejam ser direcionados. Sua associação de imagens nos conduz por uma teia de significados que constrói uma história a partir do conjunto dos recortes. Recortes que não pretendem ser totalizantes, que não contêm um significado arbitrário, mas que indicam caminhos e que possibilitam ao espectador traçar seu roteiro. Nada mais narrativo que imagens, por si só e sem a intromissão de outras esferas. (Renato Batata)

“Aqui” está na Mostra Brasil 6.

Olhos de ressignificação

Filmes confessionais. A cada dia aprecio mais esse cinema no qual o criador escancara, sem pudores e com paixão, a sua própria intimidade, seu universo, a sua “verdade” — ou parte dela, ao menos. E o digo pois todo realizador — e me incluo nessa categoria — sabe, no fundo e por mais que às vezes não o queira, que o filme é sempre seu, e em maior ou menor grau de sua equipe, dependendo da postura que tem na direção.

Por mais que se busque a imparcialidade, a objetividade, a “realidade tal qual ela é”, ideia tão bem representada pela imagem de uma “mosca na parede”, ali, imperceptível e testemunha oculta da história, de fato o que se tem é sempre uma “representação” de tal realidade, guiada pela visão de mundo e em primeira instância pelo próprio “olhar” de quem o vê.

“É a mosca na sopa”. É o “eu”. É o “meu”. E é justamente o fato de tornar explícita essa condição inerente à natureza humana que tanto aprecio, e a coragem de fazê-lo ainda mais. Por esse motivo, em especial, um dos curtas que mais me tocaram até agora nesta maratona do filme curto foi “Olhos de Ressaca”.

A diretora Petra Costa nos presenteia – sim, este é o termo preciso – com a história de amor e companheirismo de seus avós, casados há 60 anos, rememorada pelos próprios através das lembranças familiares expressas em imagens de arquivo misturadas às confissões de detalhes da intimidade do casal.

Tratado com extrema delicadeza, repleto de citações musicais e literárias que fizeram e ainda fazem parte da história de Vera e Gabriel, e imageticamente de beleza ímpar – trabalho impecável de Petra e Erik Rocha –, o filme nos leva a um estado de sublimação em seus 20 minutos de duração, que de fato voam. Incrível lembrar agora, ao escrever este post, a expressão de verdadeiro encantamento dos rostos daqueles presentes no domingo na sessão das 19h na sala BNDES da Cinemateca.

E mais tocante ainda foi ouvir ao final da sessão a confissão da montadora do filme, Ava Rocha, sobre a emoção que sentia enquanto, juntamente com Petra, realizava esse verdadeiro trabalho de “escavação”, de “arqueologia” mesmo, sobre a memória e intimidade daqueles senhores até então estranhos a ela. Ratificava assim a ideia de que um filme confessional, com pessoas e acontecimentos a priori tão específicos, pode sim emocionar e significar aos outros na medida em que se tem o dom de ressignificá-lo através da impressão de seu próprio ”olhar”. (Iuri Leonardo dos Santos)

“Olhos de Ressaca” está na Mostra Brasil 4.

Alguém tem que honrar este cinema

Nanocinemas, o futuro das salas de cinema. Essa é uma das tiradas do novo filme de Leonardo Esteves, “Alguém Tem que Honrar essa Derrota”. No festival do ano passado, tive o prazer de assistir a “Emprego Temporário”, do mesmo cineasta, que discutia de maneira muito interessante os problemas pelo qual o cinema brasileiro enfrentou após o fechamento da Embrafilme.

Leonardo tem humor ácido, faz uma crítica aos filmes vazios que costumam circular por aí, ao mesmo tempo em que revela certo desespero com a situação do cinema brasileiro em geral. Os filmes feitos com sacrifício, sem recursos, sem distribuição e sem exibição garantida em salas de cinema. Quando são exibidos, muitas vezes, são incompreendidos por um público acostumado ao dramalhão novelesco e às aventuras hollywoodianas.

Leonardo bebe com criatividade na fonte do cinema marginal. Seus filmes não têm preocupação com a continuidade e com uma narrativa fluída. A decupagem clássica e o método de montagem que tende a esconder o dispositivo cinematográfico vão pro espaço em seu filme. A sinopse de “Alguém Tem que Honrar essa Derrota” ironiza: “um filme rodado no carnaval, sem roteiro, sem claquete e sem fotômetro”.

A fotografia é de Dib Lutfi, o mesmo responsável pela câmera em transe de “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, e pela fotografia de vários títulos do Cinema Novo. Leonardo pode se orgulhar de ter feito um filme que discute muitos dos problemas pelos quais o cinema criativo passa e também o quadro geral do cinema brasileiro.

Entre esses problemas, o da dominação das salas de exibição pelos multiplexes (em sua maioria, sob controle de grupos estrangeiros) e a deterioração dos cinemas de rua e das salas alternativas, cada vez mais divididas até que caiba apenas meia dúzia de gatos pingados que vão se deparar com telas minúsculas e projeções digitais de “alta qualidade”. (Renato Batata)

“Alguém tem que Honrar essa Derrota” está na Mostra Brasil 4.

Reféns da miséria

É interessante a reação de algumas pessoas a imagens fortes. O filme em questão é “Nem Marcha nem Chouta”, de Helvécio Marins. Um filme simples, muitos diriam, mas prefiro pensar que é um filme fruto do acaso. Como o diretor disse após a sessão, nas viagens que costuma fazer pelo país, Helvécio leva uma câmera e registra imagens curiosas do cotidiano, coisas que lhe chamam a atenção. O resultado de uma dessas filmagens gerou o filme a que agora dedico este post.

Gostaria, em primeiro lugar, de relatar o impacto que ele gerou após a projeção. Uma das pessoas que me acompanhava disse que não gostou do filme, pois estava cansada de ver na tela de cinema imagens de garotos pobres com pedaços de carne – miséria, enfim. Até entendo essa posição, principalmente num cenário saturado por imagens de pobres praticando assassinato mútuo em longas-metragens. É compreensível.

Mas, voltando ao filme, penso que mostrar um garoto numa bancada de madeira, com pedaços de carne em meio a um enxame de moscas e restos do boi morto por perto (como uma cabeça), não é apelativo. Parece-me que o garoto estava vendendo a carne, ou algo do tipo; a bancada parecia de feira. Mesmo que não fosse isso, o fato é que a miséria incomoda.

Além de mostrar cena que se repete dia-a-dia pelo Brasil afora, Helvécio trava uma “luta” com o garoto. A câmera foi disposta em linha frontal e o garoto olha para ela fixamente, incomodado com sua presença. No cinema, o garoto parece estar nos olhando diretamente. Ele não diz nada, tenta fugir do olhar da câmera, se esquiva em meio à carne cheia de moscas.

Para além de qualquer generalização, “Nem Marcha nem Chouta” nos faz olhar diretamente pra uma situação por muitos ignorada. No cinema, somos reféns da tela branca, estamos imóveis e receptivos àquilo que é projetado. Quando teve início a sessão e o garoto passou a nos fitar fixamente, um ar de incômodo pairou sobre a sala BNDES, na Cinemateca.

Ali, o garoto pôde não ser ignorado, não foi visto de canto de olho, nem dispensado com um “não tenho”. Ali, ele manteve refém uma platéia absorta com sua condição, uma platéia que muitas vezes vai ao cinema justamente pra esquecer em que mundo vivemos. (Renato Batata)

“Nem Marcha nem Chouta” integra a Mostra Brasil 4.

Antes e depois

É impossível não reparar o cuidado com que “Elo”, de Vera Egito, foi realizado. A fotografia que tende para o azul, a luz estourada, o figurino que remete aos anos 80 são elementos sutis que, em conjunto, retratam um momento na vida de uma garota chamada Lílian.

É um filme silencioso, mas a música da personalidade musical que evoca parece ressoar na tela. O elo entre Elis Regina e Lílian só é revelado no desfecho; enquanto uma mulher morre, outra mulher nasce.

Apesar de ser um filme de instantes, eles não são fortes o bastante para tocar o espectador. Pode existir um elo entre as duas mulheres do curta, mas não acredito que se estabeleça um entre o filme e a platéia. Fica a sensação de espera, de expectativa que jamais é concluída.

Mas “Elo” não deixa de ter belos momentos, como aquele em que Lílian anda pelas ruas de São Paulo sem escutar nada. Ela acaba de ter passado por tal experiência, como se seus ouvidos tivessem se fechado para o mundo, apesar de todos os outros terem se aberto para ouvir a morte de Elis.

As andanças da protagonista preenchem essa lacuna temporal, entre a ação e o resultado. Antes de Elis e depois de Elis, quando ela toma consciência das mudanças que ocorrem com ela, e que ainda vão ocorrer.

Mas o espectador fica esperando, esperando algo que não vem. É possível que seja essa a sensação que a diretora procurava, uma espera por respostas, respostas que a protagonista não têm. (Mariana Serapicos)

“Elo” está na Mostra Brasil 1.

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