Onde está minha tartaruga?

O que nos resta quando temos como amiga, talvez a única, uma tartaruga? E o pior: a tartaruga resolveu também sumir, deixando-nos com um imenso vazio.

“Parabéns”, de Gero Camilo e Gustavo Machado, é uma pequena pérola sobre os descaminhos humanos que nos levam à solidão.

Câmera na mão, ângulos inusitados, closes distorcidos, interpretação no limite (ora a personagem parece à deriva, ora em pleno surto) nos remetem a uma sensação claustrofóbica de angústia. Angústia causada pela solidão. Solidão que não é explicada, mas vivida e, repetidamente, anunciada e marcada para o telespectador.

Com poucos diálogos e muita ação física, vemos uma mulher deteriorando-se no dia do seu suposto aniversário. Ninguém a procura e ela também não procura ninguém. Está em casa, (re)vivendo todos os seus horrores enquanto, quase insanamente, procura por sua tartaruga que, misteriosamente, fugiu do casco.

O que faz essa mulher ser tão sozinha, ou até pior, o que ela fez para que todos a esquecessem, principalmente no dia do seu aniversário? O que fazemos da nossa vida para estarmos sozinhos, mesmo que muitas vezes acompanhados por multidões?

“Parabéns” é uma pequena parábola sobre uma característica humana que causa dependência: o homem é um ser gregário. Vive em grupo e precisa de outros para poder continuar caminhando, mesmo que a passos de tartaruga. (Maurício de Carvalho)

“Parabéns” está no Panorama Brasil 6.

Adicionar comentário 30 de Agosto de 2007 às 22:49 srizzo

Sem identificação

Ser igual ou ser diferente? Quando podemos não nos identificar com nossos semelhantes?

“Aquele Cara”, animação muito bem elaborada de Rafael Coutinho, ousa discutir, em apenas seis minutos, o que psicanalistas (principalmente Freud) levaram anos e muitas obras.

A ação se desenrola em meio a uma comunidade de “polegares”, ou seja, todos os seus habitantes possuem cabeça de dedo, sem uma configuração de rosto detalhada.

Ao sermos rapidamente apresentados para esses homens-dedo, acompanhamos uma corrida alucinante de um ser “diferente”, imerso no vazio da semelhança. O homem com rosto parece estar assustado ao ver todos aqueles dedos a passear, namorar, trabalhar. Parece fugir de algo que não sabemos bem o que é.

Logo a incrível dessemelhança é percebida e o homem é perseguido implacavelmente. A diferença não seria permitida ou até mais, seria indício de algo inoportuno. Ao ver esse curta, lembrei-me de uma história do Astronauta, personagem de gibi do autor Maurício de Souza. Ao visitar um planeta, Astronauta encontrou pessoas que eram cindidas, ou seja, apenas metades. Hemicorpo esquerdo ou direito. Naquele planeta, era “normal” ser assim. Estranho era aquele ser inteiro, completo. O nosso herói com rosto passou por situação semelhante. Semelhante? Não, ele foi perseguido por ser dessemelhante, por não se enquadrar na média, por ter um rosto.

Na comunidade de homens-dedo, ser diferente é proibido, mesmo que a semelhança seja forjada. Ainda bem que não vivemos nessa comunidade. (Maurício de Carvalho)

”Aquele Cara” está no Panorama Brasil 5.

Adicionar comentário às 22:45 srizzo

Para além das telas do cinema

O Panorama Brasil 9 do festival é sempre reservado a uma seleção de filmes universitários do Cinema em Curso com maior destaque. Esse ano, ao assistir à sessão, me deparei com “Alphaville 2007 D.C.”, que chamou não só a minha atenção, mas também de boa parte do público que participava do debate do Cinema em Curso que aconteceu dia 27 no MIS. O filme foi muito comentado no dia, e Paulinho Caruso, diretor do curta, estava entre os debatedores da mesa.

Durante o debate, levantei uma questão que gerou certa polêmica. Comentei que desde que participo do festival, vejo grande recorrência de filmes intimistas, que tratam de questões e angústias particulares. Acrescentei que sentia falta de filmes que tratassem de temas políticos com maior combatividade, que fossem mais agressivos e vivos. “Alphaville 2007 D.C.” é justamente o tipo de filme do qual disse sentir falta. Ele questiona, polemiza, critica. O filme é recheado de ironias, satirizando o medo e o isolamento da classe alta moradora de Alphaville, bairro afastado de São Paulo, cercado de câmeras e seguranças. Fala dessa mesma classe alta que se esconde atrás de altos muros, grades e cercas, que vive uma vida ideal em meio ao caos e à violência urbana.

Para além do bairro de classe alta, “Alphaville” de Godard também é referência no filme de Paulinho. No elenco, além de Datena, ícone do sensacionalismo policial na TV, também a ex-dançarina do Tchan, Sheila Mello.

Longe de querer ressuscitar Glauber Rocha e o Cinema Novo, um cinema que dialogue para além das angústias, medos e anseios particulares é de extrema importância. Se no Festival Latino ocorrido no mês passado o público se mostrou indignado e vaiou políticos em discurso, ainda penso que essa indignação pode extrapolar as vaias e invadir as telas. Filmes como “Alphaville 2007 D.C.” fazem a diferença quando polemizam questões atuais de forma inteligente. São filmes que extrapolam as telas do cinema para gerar discussão, reflexão e (por que não?) mudanças. (Bruno Logatto)

“Alphaville 2007 D.C.” está no Panorama Brasil 9.

1 comentário 29 de Agosto de 2007 às 17:50 srizzo

Sonho de Icarus

“Icarus” possui uma estética própria. São figuras aparentemente rudes e desengonçadas que se tornam delicadas e comoventes. Não há falas. Olhos e bocas criam feições capazes de representar qualquer expressão ou sentimento. Gianfrancesco Guarnieri, a quem o filme é dedicado, é o narrador. Sua voz nos conta a história ao mesmo tempo que nos acolhe.

Solidão, desamparo e alegria são temas retratados pelo curta. A dor perante a morte e necessidades de conforto. O terror em sonhos e a realidade dentro do quarto do garoto. O filme encontra nos brinquedos de Icarus maneiras sutis de representar todos esses sentimentos e ações.

Segundo a sinopse, “uma história de amor que tudo vence, que tudo constrói, até pontes que não existem mais”. O quarto de Icarus já não é o limite. Nem o céu. (Gustavo Forti Leitão)

“Icarus” está no Panorama Brasil 1.

Adicionar comentário às 17:44 srizzo

Tentarei ser imparcial

Em janeiro deste ano, fui chamado para fazer assistência de fotografia para o curta “De Vestido Novo”, de Diego Costa. Sete meses depois, vi o filme ser exibido no MIS. E agora cá estou para escrever sobre ele.

Acabei tendo um envolvimento grande com o curta. Vi muita coisa acontecer. Desde a fabricação do sangue falso até a montagem de um steadycam improvisado. Senti os atores, a iluminação e o cenário. Os problemas. A vontade de se fazer cinema e a diversão entre amigos. As soluções. A felicidade das pessoas envolvidas ao saber que o curta havia entrado no Festival. Vi tudo tão de perto e agora tento fazer desse texto um exercício de distanciamento para uma possível reflexão. Tentarei ser imparcial. Tentarei.

A primeira cena do corredor é a porta do filme. Não se entende o que acontece nem o que poderá acontecer. Um homem ensangüentado caminha rapidamente e com uma arma na mão. O tom de desespero é dado pela tensão de Vítor. Aliás, a tensão desse personagem é o fio condutor da montagem. Conforme Vítor se acalma no decorrer do curta, o número de cortes diminui e o ritmo da edição decai.

Se Vítor transborda toda essa tensão, Bia parece escondê-la com alguns lapsos. Ela é o oposto dele. Racional. Apesar de angustiada com a vida do casal, é sempre solícita a Vítor.

Um dado técnico curioso de “De Vestido Novo” foi o som. Com o intuito de agilizar a produção no set de filmagem, além de fazer experimentações, o curta foi todo dublado posteriormente em estúdio. O resultado foi positivo.

Os outros aspectos técnicos também são bem resolvidos. A fotografia se alia à arte e constrói um ambiente que confere com a proposta do curta. Para distinguir momentos dentro do filme, faz-se uso da estética branco e preto. Destaca-se um virtuoso plano-seqüência que envolve giros com a câmera, sincronismo com a personagem e uma subida de escada. E assim o curta se constrói. É funcional e sabe se utilizar muito bem da linguagem cinematográfica.

Tentei ser imparcial. Tentei. (Gustavo Forti Leitão)

“De Vestido Novo” está no programa Cinema em Curso 1.

1 comentário 28 de Agosto de 2007 às 22:21 srizzo

Por que o olhar para a câmera?

“Uma Vida e Outra” conta a história de uma garota de 18 anos que se envolve com um homem mais velho e é abandonada por ele quando engravida. Durante o filme, o que está em jogo são os conflitos de Laura diante dessa situação e a sua dúvida em fazer ou não um aborto. O filme se pretende cru, sombrio e naturalista. Para tanto, Daniel Aragão se vale, dentre outros elementos, de diálogos agressivos entre as personagens e imagens em preto e branco contrastadas. Quando questionado, durante o debate, sobre o motivo que o levou a realizar essa obra, o diretor disse que ela é resultado de uma pesquisa que está desempenhando em Recife sobre a redoma de vidro em que vive a classe média, e o tema do aborto é algo muito presente nesse grupo social.

“O filme é um comentário sobre as possibilidades de escolha de cada um, num contexto como o de Laura, só isso”, disse Aragão ao público. Entretanto, para mim as questões em seu filme estão bem complicadas, incoerentes, contraditórias e, mais do que isso, irresponsáveis. O tema do aborto é tratado de forma sensacionalista, com direito a imagens da cirurgia em que vemos o embrião indo pro lixo e imagens de bebês e crianças sob os créditos finais, acompanhados por uma trilha sonora emotiva. A cena final é de um moralismo perturbador: após a cirurgia do aborto, Laura está deitada em sua cama e seus pais estão ao lado, comovidos com a atitude da filha. Então, a mãe solta a máxima: “todas podem ser uma boa mãe, para ser uma boa mãe basta querer”. Nesse momento, um close de Laura, que olha para a câmera com um sorriso mordaz. O que quer dizer esse sorriso? Por que o olhar ao público? No campo da linguagem cinematográfica mesmo: por que a ruptura narrativa e o anti-ilusionismo? Se o filme pretendia ser um comentário, qual é a posição do diretor diante do tema? Qual é seu comentário, afinal?

Pró-aborto, contra-aborto, Daniel Aragão não está sequer em cima do muro. Ele salta o muro, num vai-e-volta incompreensível. Ao mesmo tempo em que reconhece a dor de sua personagem diante da solidão e abandono, a condena pelo aborto, e em seguida a legitima em sua escolha. Pior do que essa inconstância toda no ponto de vista do narrador é a opção estética do diretor em utilizar como plano final de sua obra um olhar para a câmera, rompendo com o espetáculo narrativo. Um recurso equivocado, descontextualizado, esvaziado, gratuito e irresponsável que sequer Daniel Aragão soube justificar ao público quando questionado sobre ele. (Anahí Borges)

“Uma Vida e Outra” está no Panorama Brasil 4.

5 comentários às 22:12 srizzo

Cinema sem manipulações emocionais

Ter atores da Companhia do Latão no elenco já é motivo suficiente para que “Um Ramo”seja mencionado. Além de trazer atores de um grupo que representa o que há de melhor no teatro contemporâneo brasileiro, Juliana Rojas e Marco Dutra já provaram que vieram para ficar. Foram para Cannes e trouxeram o Prêmio Descoberta Kodak na Semana Internacional da Crítica. A atmosfera morna na qual foi recebido esse filme no MIS (Museu da Imagem e do Som) talvez seja um sintoma das preferências do público por emoções fáceis. “Um Ramo” não é fácil. A estranheza na temática, na opção de câmeras e no ritmo em que se desenrola a história passa longe das manipulações emocionais tão freqüentes na produção audiovisual hoje.

O material básico desse filme é o ser humano. A quase ausência de diálogos em muitos momentos causa constrangimento, mas esse silêncio não tem a função de afastar o público, pelo contrario, propicia a reflexão de uma situação absurda e extraordinária. Nada é extraordinário na vida da personagem. Os planos enfocando impiedosamente suas expressões revelam mais do que as palavras. O discurso é secundário, as ações são o que importa.

Como tratar com naturalidade o fato de haver madeira e folha crescendo pelo corpo? A personagem consegue. Tentando esconder, ela revela a força de ser mulher; ela é dona de casa, profissional, amante e mãe, tem que manter tudo sob controle, precisa cuidar do filho, não pode privá-lo de seus cuidados. O tratamento médico da aberração que ocorre em seu corpo é ocultado dos que a cercam. Ela é importante demais em seu microcosmo de existência para admitir que possua um problema; ela é a que cuida, não podem cuidar dela. (Ana Mesquita)

“Um Ramo” está no Panorama Brasil 1.

4 comentários às 22:06 srizzo

Burajiru

A história da imigração dos japoneses ao Brasil, ao contrário da imigração dos povos provindos da Europa, é muito pobre de cultura audiovisual. Diversas novelas retrataram famílias italianas, portuguesas, espanholas, mas poucas retrataram famílias japonesas. Também são poucos os filmes que trataram desse assunto. Extraordinariamente, duas ficções selecionadas para o festival mostram diferentes aspectos dessa cultura descuidada pelos meios audiovisuais.

A primeira, “Tori”, dirigida por Quelany Vicente e Andrea Midori Simão, trata de um costume freqüente em famílias japonesas, quando um dos filhos de uma família era levado para outra quando a primeira não tinha condições para cuidar dele ou por algum outro motivo, principalmente financeiro. Ambientado nos anos 50, o filme possui uma direção discreta, com câmeras mais estáticas e enquadramentos formais. Justamente isso é o que prejudica o filme. Ao confiar muito em vozes em off e ao preocupar-se demais com a sutileza de sensações contidas no cotidiano, ficamos com um enredo discreto demais para os olhos, embora seja tão interessante.

Já a segunda, “Primavera”, produção da ECA-USP com direção de Maurício Osaki, trata de uma geração mais atual e afastada dos costumes trazidos do Japão. Para o garoto da cidade que visita um templo japonês no interior, os costumes e ambientes são desconhecidos e assustadores. Ao longo do passeio, pequenos fragmentos que fazem parte de seu próprio passado vão sendo incorporados, seja no respeito aos mortos ou no conhecimento de alguns hábitos de outra cultura que de alguma forma ainda estão presente em sua vida, embora nem sempre constantes. A direção do filme é muito precisa e eficiente ao apontar esses pequenos pontos que florescerão no garoto durante sua própria jornada, quando se perguntar “Quem sou?”.

Um ano antes da comemoração dos 100 anos de imigração japonesa no Brasil, esses dois filmes são exemplos de que há muito a ser descoberto e redescoberto sobre esse assunto. Ainda existem muitas histórias boas a serem contadas, assim como imagens a serem vistas que talvez dividam espaço nas nossas imaginações com as diversas telenovelas e filmes de famílias italianas no Brasil e Estados Unidos. (Alexandre Nakahara)

“Tori” está no Panorama Brasil 4; “Primavera”, no Panorama Brasil 9.

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Beijo de cinema, e vice-versa

Vagamente lembro-me de ouvir alguém me contando sobre a magia do papel do bombom Sonho de Valsa. Era só colocá-lo sobre as vistas que uma nova realidade se apresentaria: la vie en rose. Me confesso recém-saído da adolescência. Se levarmos em conta a grandeza da vida, digo que há pouco abandonei meu celofane cor-de-rosa. Trazê-lo de volta, ao menos por alguns poucos minutos, foi obra de “Saliva”, novo filme sensação (em todas as acepções da expressão) de Esmir Filho.

Em contraposição à monstruosidade com que o evento infanto-juvenil do primeiro beijo é mostrado na tela, temos um filme de temática muito simples, tão simples quanto o próprio evento se revela (apenas com a chegada dos anos) - ainda que no filme da memória individual seja mantida a cena do monstro particular que “Saliva” apresenta, mas não mostra.

A aventura de Marina em sua primeira decisão em relação ao próprio corpo é contada através de metáforas visuais, que revelam um apuro estético impecável comprometido com a obtenção de uma poética arrebatadora. Não vejo problemas em uma suposta concepção visual anteceder a delimitação da narrativa e do contexto dramático, uma vez que considero o desejo por construções de imagens tão digno da posição de inspiração quanto a também essencial vontade de se contar uma história. O discurso é único – o da garota; os eventuais diálogos são entre as vozes que vivem se digladiando dentro dela mesma. Logo, se a narrativa é contada a partir da cabeça e do corpo dessa garota, vemos/sentimos a mistura tensa de seus questionamentos e ações transformados em imagens. Sendo assim, a estética não se faz gratuita ou inoportuna: a imagem produz aquilo que só poderia ser imagem – estados de alma, produtos dos pensamentos provocados pelas sensações de quem beija, pensa mas não fala.

Por isso mesmo, o filme acaba apresentando sua própria profundidade (profundidade na qual mergulha Marina?) brotada no terreno da simplicidade. Afinal, qual experiência por mais simples que seja não pode ser profunda?

Ainda que essa gravidade transmitida pelo filme seja obtida através de planos e de uma montagem altamente calculados, estes apresentam brechas por onde correm as delícias provadas por quem se deixa levar consciente ou inconscientemente pelos mesmos e que não negam as contribuições que a experiência pessoal de cada espectador pode oferecer à sua própria interpretação. De forma alguma se comprometem o privilégio e a honra de acompanhar um momento tão íntimo de alguém que descobre o novo arriscando seu tempo particular.

Saio da sessão ainda meio atordoado. Quem me dera ter de volta a leveza pueril e o mesmo entendimento acanhado que a atriz principal sentada na poltrona de minha frente revelava em sua risada reprimida e em seu balançar de nuca ao se ver na tela.

Mal sabia ela que também me via. (Yuji Kawasima)

“Saliva” está nos programas Panorama Brasil 3 e Semana da Crítica.

Adicionar comentário às 00:23 srizzo

Realismo confundido com romantismo

É incrível a familiaridade que percebemos em algumas (que fique claro, somente algumas!) produções vindas do Rio de Janeiro. Por um momento relutamos em aceitar, mas a realidade se impõe. A influência que a Rede Globo possui na cidade é mais do que uma forma de dominação da massa, é um estilo de vida que pode ser notado nos mínimos detalhes.

Não é diferente na produção universitária. A influência da TV se mostra até mesmo na construção dos currículos dos cursos de jornalismo. Na UFRJ, por exemplo, os alunos têm telejornalismo I, II, III e IV, formando assim futuros profissionais com práticas televisivas.

“O Cravo”, vindo da privada Estácio de Sá, não nega isso. A música melodramática e a opção por valorizar a historinha de amor carregam o filme com uma áurea folhetinesca. A todo momento ao longo de sua exibição, policio meus pensamento para levar em consideração o fato de ser um filme de estudantes, mas outras produções na mesma sessão não me deixam dúvidas quanto à qualidade precária do curta.

Um apresentador/narrador, que nos créditos aparece como um anjo (?!), conduz o telespectador à história de Mestre Romão, um maestro que nunca compôs nada. O tempo não linear é usado de maneira frágil, até mesmo incompreensível. Os atores são ruins e, mesmo que demonstrassem potencial, fica clara a falta de um bom preparador de elenco. A reconstituição de época se salva por um triz, pois nada do que aparece na tela é anacrônico.

A história em si tem sua força, afinal, é adaptação de um conto de Machado de Assis. Mestre Romão não consegue compor porque sua amada morreu enquanto ambos eram muito jovens. O impacto causou marcas profundas em sua alma, a ponto de travar-lhe a criatividade na arte de compor. Ora, acredito que não deva existir nada pior para qualquer artista o fato de ter que reproduzir a arte de outros, e nunca ver sua obra se materializando. Ele não deixará marcas no mundo. Nem o filme. (Ana Mesquita)

“O Cravo” está no Cinema em Curso 2.

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