Publicações arquivadas sob Artigos: Cinema em Curso
Imagine Guimarães Rosa subindo em árvores. Ou Machado de Assis ronronando em seus pés. E por que não Eça de Queiroz fazendo suas necessidades em caixas de areia? Escritor quando morre vira gato. Essa é a premissa de “Sete Vidas”, curta divertido sobre a vida de um gato que possui autonomia para escolher seu dono.
Para isso, mede prós e contras de sete candidatos. Entre os prós, encontram-se orgia, boa música, comida e conforto, entre outros. Contra: excesso de carinho, possibilidade de abandono e violência. Os sete possíveis donos são ligados pela solidão, que surge por diferentes formas e fatores para cada personagem: idade, loucura, arte, trabalho e até mesmo opção. O gato, também permeado pela solidão, acaba escolhendo aquele com quem mais se identifica. E que também logo possa acompanhá-lo.
“Em Flor” é outro curta que pode ser visto sob essa mesma perspectiva homem-animal-solidão. Como o gato de “Sete Vidas”, o canário de “Em Flor” possui autonomia. Talvez não a mesma autonomia racional como tem o gato, mas algo mais instintivo e natural.
Enquanto o gato escolhe seu dono, o canário é escolhido por um garoto que quer vê-lo cantar. A frustração é a linha que liga as tentativas do garoto e o silêncio do pássaro. O curta então se bloca em etapas. Faz do quintal da casa do menino e da loja de animais um eterno vaivém. A persistência da criança faz suas tentativas tornarem-se mais desesperadoras. A essa altura, todos queremos ouvir o pássaro cantar; nos identificamos com o garoto. Estamos dentro do filme. O cinema cumpre seu papel.
Silêncio. Aplausos. (Gustavo Forti Leitão)
“Sete Vidas” está no Panorama Brasil 2; “Em Flor”, no Cinema em Curso 3.
31 de Agosto de 2007 às 18:50
srizzo
Sou um entusiasta do formato curta-metragem e, mais especificamente, dos curtas produzidos por alunos.
Gosto do frescor, da liberdade e da experimentação provocada por pessoas que não estão somente preocupadas em vender seu produto, mas que querem contar uma história, partilhar momentos e vivências.
Não irei me atentar a nenhum curta em específico, mas sim ao programa Cinema em Curso e à sua importância para a formação do futuro cineasta brasileiro.
Ao conversar na quinta-feira passada com Ana, outra participante deste blog, disse a ela que minha principal ocupação seria assistir à programação do Cinema em Curso, porque ela muito me agrada.
Evidente que os filmes têm problemas de qualidade técnica, no entanto, de um modo geral, mostram como andam as idéias dos estudantes de audiovisual no Brasil e é fundamental analisar essas produções para começar a entender os possíveis rumos que o cinema brasileiro irá tomar.
Digo isso porque temos pouco espaço real para a divulgação da produção de alunos e esta fica, na sua grande maioria, reservada às próprias faculdades, privando a população em geral de prestigiar trabalhos feitos com muita originalidade e com poucos recursos. Tal característica parece-me enriquecer essas obras, pois elas apresentam-se muito sinceras em seus conteúdos e na forma como são comunicados.
Por isso, recomendo que todos assistam aos filmes do Cinema em Curso para que exista a possibilidade de um maior reconhecimento da produção audiovisual de jovens cineastas. Para encontrar o seu caminho, eles trilham fronteiras muito interessantes para o cinema nacional que, apesar de cada vez mais efervescente, ainda precisa achar um curso de caminhada mais efetivo e afetivo. (Maurício de Carvalho)
Cinema em Curso tem cinco programas no 18º Festival.
30 de Agosto de 2007 às 22:53
srizzo
Em janeiro deste ano, fui chamado para fazer assistência de fotografia para o curta “De Vestido Novo”, de Diego Costa. Sete meses depois, vi o filme ser exibido no MIS. E agora cá estou para escrever sobre ele.
Acabei tendo um envolvimento grande com o curta. Vi muita coisa acontecer. Desde a fabricação do sangue falso até a montagem de um steadycam improvisado. Senti os atores, a iluminação e o cenário. Os problemas. A vontade de se fazer cinema e a diversão entre amigos. As soluções. A felicidade das pessoas envolvidas ao saber que o curta havia entrado no Festival. Vi tudo tão de perto e agora tento fazer desse texto um exercício de distanciamento para uma possível reflexão. Tentarei ser imparcial. Tentarei.
A primeira cena do corredor é a porta do filme. Não se entende o que acontece nem o que poderá acontecer. Um homem ensangüentado caminha rapidamente e com uma arma na mão. O tom de desespero é dado pela tensão de Vítor. Aliás, a tensão desse personagem é o fio condutor da montagem. Conforme Vítor se acalma no decorrer do curta, o número de cortes diminui e o ritmo da edição decai.
Se Vítor transborda toda essa tensão, Bia parece escondê-la com alguns lapsos. Ela é o oposto dele. Racional. Apesar de angustiada com a vida do casal, é sempre solícita a Vítor.
Um dado técnico curioso de “De Vestido Novo” foi o som. Com o intuito de agilizar a produção no set de filmagem, além de fazer experimentações, o curta foi todo dublado posteriormente em estúdio. O resultado foi positivo.
Os outros aspectos técnicos também são bem resolvidos. A fotografia se alia à arte e constrói um ambiente que confere com a proposta do curta. Para distinguir momentos dentro do filme, faz-se uso da estética branco e preto. Destaca-se um virtuoso plano-seqüência que envolve giros com a câmera, sincronismo com a personagem e uma subida de escada. E assim o curta se constrói. É funcional e sabe se utilizar muito bem da linguagem cinematográfica.
Tentei ser imparcial. Tentei. (Gustavo Forti Leitão)
“De Vestido Novo” está no programa Cinema em Curso 1.
28 de Agosto de 2007 às 22:21
srizzo
É incrível a familiaridade que percebemos em algumas (que fique claro, somente algumas!) produções vindas do Rio de Janeiro. Por um momento relutamos em aceitar, mas a realidade se impõe. A influência que a Rede Globo possui na cidade é mais do que uma forma de dominação da massa, é um estilo de vida que pode ser notado nos mínimos detalhes.
Não é diferente na produção universitária. A influência da TV se mostra até mesmo na construção dos currículos dos cursos de jornalismo. Na UFRJ, por exemplo, os alunos têm telejornalismo I, II, III e IV, formando assim futuros profissionais com práticas televisivas.
“O Cravo”, vindo da privada Estácio de Sá, não nega isso. A música melodramática e a opção por valorizar a historinha de amor carregam o filme com uma áurea folhetinesca. A todo momento ao longo de sua exibição, policio meus pensamento para levar em consideração o fato de ser um filme de estudantes, mas outras produções na mesma sessão não me deixam dúvidas quanto à qualidade precária do curta.
Um apresentador/narrador, que nos créditos aparece como um anjo (?!), conduz o telespectador à história de Mestre Romão, um maestro que nunca compôs nada. O tempo não linear é usado de maneira frágil, até mesmo incompreensível. Os atores são ruins e, mesmo que demonstrassem potencial, fica clara a falta de um bom preparador de elenco. A reconstituição de época se salva por um triz, pois nada do que aparece na tela é anacrônico.
A história em si tem sua força, afinal, é adaptação de um conto de Machado de Assis. Mestre Romão não consegue compor porque sua amada morreu enquanto ambos eram muito jovens. O impacto causou marcas profundas em sua alma, a ponto de travar-lhe a criatividade na arte de compor. Ora, acredito que não deva existir nada pior para qualquer artista o fato de ter que reproduzir a arte de outros, e nunca ver sua obra se materializando. Ele não deixará marcas no mundo. Nem o filme. (Ana Mesquita)
“O Cravo” está no Cinema em Curso 2.
às 00:17
srizzo
Conversando na quinta-feira com o Maurício, outro participante deste blog, confessei a ele uma promessa que eu havia feito a mim mesma: não assistir a nenhuma sessão do Cinema em Curso. Vendo a programação, percebi que só poderia (por razões pessoais) assistir no sábado à sessão do Panorama Brasil 1, que por acaso era precedida de uma sessão do Cinema em Curso. Para não perder a viagem (moro em São Bernardo), resolvi me arriscar e assistir à produção de jovens universitários.
“Zip” foi um chute no estômago. Meus pré-conceitos formados acerca da produção universitária foram caindo à medida que a animação ia contando a história de Zip. Um menino que tem como objeto de consumo um livro e, como não tem dinheiro para comprar, resolve trabalhar.
Todos os clichês da rotina de um escritório estão lá, as baias minúsculas, o chefe que grita, os colegas de trabalho que não admitem serem tocados. Somente Zip é colorido; seus colegas de trabalho são menores e acinzentados. Seu chefe só aparece para lhe dar ordens. À medida que os dias passam, Zip se adapta, sua adaptação é fisicamente visível, e a força do curta está aí: o sistema de organização do trabalho poda a criatividade e as perspectivas de mudança que, num primeiro momento, era demonstrada através de seu objeto de desejo, uma forte crítica social — em algum momento da vida, passaremos por isso. Zip não consegue o que quer, já não pode carregar o livro. Narrar o filme dessa forma tem um quê de metafórico e, o mais incrível, literalmente é o que acontece.
Os recursos para a realização dessa animação não foram somente da universidade. Diversos patrocinadores aparecem nos créditos finais, provando que mesmo um projeto de universitários tem potencial para captar recursos e realizar algo de qualidade, superando até mesmo realizadores com alguns anos de bagagem. (Ana Mesquita)
“Zip” está no Cinema em Curso 2.
às 00:12
srizzo
No dia 23 de agosto acontece a abertura do 18º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo.
Durante o período do Festival, neste espaço, participantes da Oficina Kinoforum Crítica Curta de 2006 vão publicar neste espaço seus artigos de crítica sobre a produção deste ano.
Acompanhe.
9 de Agosto de 2007 às 14:47
criuchoa