Publicações arquivadas sob 2006: Panorama Brasil

Madrasta cruel

De fotografia e cenário maravilhosos, “A Estória da Figueira” traz diretamente do folclore brasileiro a fábula da menina que é morta ao deixar que um pássaro bique a figueira de seu pai. Infelizmente na trama, a história se perde por se privar de diálogos ou qualquer outro argumento que explicitasse do que se tratava, da transformação da vizinha em madrasta cruel - imperceptível àqueles que não conheciam a fábula (problema constatado por um amigo que se encontrava comigo e que assistiu ao filme duas vezes para ver se entendia; mesmo assim, precisei explicar a ele a lógica da história).

A história fala sobre a menininha que mora sozinha com seu pai idoso e que é bem tratada pela vizinha, que cria o desejo da pobre garotinha de ter uma mãe como ela e que, logo após o casamento, mostra-se um terror — só queria se casar pela figueira que o pai possuía em seu quintal.

Essa situação foi tratada no seriado “Hoje é Dia de Maria”, em que a crueldade da madrasta fez com que Maria fugisse. No original – e tratado no curta –, ao ser incumbida de olhar a figueira, a pobre garotinha se distrai com suas lembranças da mãe e deixa que um passarinho bique um dos figos. Por esse motivo, a madrasta a mata, enterrando-a sob os pés da figueira.

No curta, muitos desses fatos são tratados de forma não-linear ou são omitidos, o que faz com que fique confuso para o espectador entender os acontecimentos.

Em uma roupagem estilo “Rá-Tim-Bum”, há também o jardineiro que, ao longo da história, brinca com a menina e age como um animal pulando de um lado ao outro, o que simboliza a abstração da menina trazendo um colorido à sua vida árdua, além de simbolizar o ápice da história, pois é ele quem descobre a menininha enterrada, pelos seus cabelos, sob a figueira. Aqui, só se percebe que ele é o jardineiro ao final, quando toca a música “minha mãe me escovou, minha madrasta me enterrou, pelos figos da figueira que o passarinho bicou” (muito bonita nessa adaptação), e é ao mesmo momento em que se entende, em parte, a trama. Fica incompleta a presença do pai, da madrasta e da mãe, que praticamente foram jogados pela trama, fazendo com que juntássemos as peças do quebra-cabeças. (Larissa Paschoal)

“A Estória da Figueira” está no programa Panorama Brasil 9

3 comentários 2 de Setembro de 2006 às 12:39 srizzo

To be or not to be?

É de se esperar que “À Espera da Morte” seja um filme divisor de opiniões em qualquer exibição pública. Gerou polêmica no último Festival de Brasília e despertou enérgicas reações do público no auditório do MIS. Cabe dizer, no entanto, que em meio a tanta reação negativa, verbalizada no debate pós-filme, o mesmo público riu, e não foi pouco, no escuro da projeção diante das piadas besteróis que o filme explora.

“Em lugares menos politizados as pessoas se divertem e o filme faz sucesso”, disse o diretor André Luis da Cunha durante o debate. É um fato. Um filme brasileiro falado todo em russo, com personagens caricatas em situação que nos é incomum e exterior – durante a Guerra Fria, um submarino russo explode -, e cuja história não passa de uma grande piada homossexual, não deixa de ser prato cheio para o grande público se divertir. Além disso, a obra possui qualidades técnicas que não podem ser descartadas. Jogos de luz e sombra, cenografia bem realista, efeitos especiais, tiro, sangue, o tom vermelho bem marcado nas imagens.

Considerando que o filme é mais uma investida – dessa vez audiovisual — da Cia. de Comédia Os Melhores do Mundo – que tem dez anos de um reconhecido repertório pastelão e um público bem fiel ao seu trabalho –, é fácil entender o descompromisso dessa obra com qualquer tipo de engajamento político ou discussões mais profundas da psique humana (fator que levou algumas pessoas a questionarem o filme, taxando-o de preconceituoso e babaca). A proposta do filme é divertir, ponto. E para isso, como é de praxe no processo criativo do grupo, a sua dramaturgia tem elementos de humor gratuitos, agressivos e politicamente incorretos. E isso faz sucesso, como disse André Luis, nas camadas mais populares.

O problema de uma elite intelectual assistir a um filme como esse é que nos incomodamos duplamente. Primeiro, porque desautorizamos qualquer título artístico a obra (a partir dos nossos padrões de qualidade importados); segundo, porque simultaneamente à repulsa que temos, nos identificamos com o filme à medida que ele é um representante da nossa cultura – que, bem ou mal, também espelha a mediocridade, que não deixa de ser a nossa própria mediocridade. Esse paradoxo é claro e se mostra no comportamento do público, que ri no escuro da projeção, mas que se revela indignado durante o debate. (Anahí Borges)

“À Espera da Morte” está no programa Panorama Brasil 3

1 comentário 1 de Setembro de 2006 às 10:46 srizzo

Um micro-universo pequeno demais

“Amsterdam” é, segundo o próprio diretor definiu no debate após o filme, uma “tentativa de retratar um gueto paulista”. Bom, percebe-se que se trata de uma tentativa frustrada. Aliás, o filme não passa de um retrato. Nada mais. Os diálogos são pobres, a interpretação dos atores deixa a desejar e o tema é totalmente irrelevante.

Um romance adolescente sobre um dois freqüentadores da Galeria do Rock, refúgio de apaixonados por música e cultura underground. O garoto (Cabeça) está começando a fazer tatuagens. Sua namorada (Deyse) apóia e incentiva seu trabalho, mas todos acham que ele não tem talento para a coisa.

O filme não propõe crítica ou reflexão. Não aprofunda nenhum tema. Os diálogos são vazios, rotineiros, retratam um micro-universo de pessoas com gostos em comum, nada mais.

Um filme feito por um diretor apaixonado por esse universo presente na galeria, mas que não conseguiu distanciamento suficiente para poder falar sobre o tema. (Bruno Logatto)

“Amsterdam” está na mostra Panorama Brasil 8

1 comentário 31 de Agosto de 2006 às 19:11 srizzo

Prata da casa

“Viva Volta”, de Heloisa Passos é um desses documentários que todos deveriam ver. A diretora resgata, com muita sensibilidade, o trombonista Raul de Souza, artista brasileiro renomado no mundo inteiro, mas completamente ignorado no seu país.

Apesar de fazer esse resgate, a diretora consegue evitar o sentimentalismo barato no qual o filme poderia cair. Não tem tom nostálgico ou de indignação pela injustiça por aqui cometida. Tem, sim, a figura carismática que é Raul, enquadramentos bonitos de se ver, e uma música deliciosa. Quer mais um motivo? Maria Bethânia faz uma participação, muito bem à vontade ao lado do amigo. (Diego Nunes)

“Viva Volta” está no programa Panorama Brasil 6

Adicionar comentário às 13:55 srizzo

Perdeu-se pelas crianças

“Super Flufi”, de Tula Anagnostopoulos, é um filme com bom roteiro, produção bem feita, e que se utiliza de um excelente recurso de animação. Mas o filme tem um erro grave, que consegue acabar todo o trabalho realizado: a escolha do elenco. Com exceção dos atores que interpretam os pastores no culto televisivo, o resto é completamente equivocado, inexpressivos e forçados.

O filme tenta mostrar a grandiosidade de um universo infantil. Tenta, mas não consegue, e se perde principalmente na direção das crianças. Dirigir criança não é uma tarefa nada fácil, e começa já na seleção.

No Brasil, comete-se o grande equivoco de confundir crianças engraçadinhas com boas atuações. E, às vezes, uma criança que fala errado, meio chatinha, com a naturalidade de um robô, num primeiro momento pode parecer uma boa escolha, mas na verdade é uma escolha viciada, baseada no padrão de atores mirins vistos nas novelas globais ou nos calouros do Raul Gil. Uma gracinha de menina nem sempre é uma boa atriz. E a idade não justifica a falta de coerência em cena. Uma atuação mirim ruim, quando colocada num papel principal, faz um estrago absurdo na obra. Quando cercada de atores adultos também ruins, não há esforço técnico que salve.

Crianças ou não, má escolha dos atores destrói todo o trabalho de um curta-metragem. (Diego Nunes)

“Super Flufi” está no programa Panorama Brasil 6

3 comentários às 13:52 srizzo

Quase delírio

Fui assistir a “Sob o Encanto da Luz” pelo cenário um tanto quanto curioso. Confesso que me surpreendi.
O filme de Dirceu Lustosa foi praticamente todo feito embaixo d’água, e tem imagens que literalmente tiram o fôlego. Com um bom jogo de câmeras, Lustosa poderia ter recorrido ao documental, ou mesmo a uma colagem visual, o que já garantiria ao filme um grande crédito.

Mas o diretor brasiliense foi além. Criou um enredo, quase delírio reforçado pelos efeitos luminosos que incidiam na água. Tudo bem, a história deixou um pouco a desejar, mas gostei da ousadia estética, típica dos novos realizadores de Brasília. Particularmente, acho bem interessante a recente produção que vem de lá. Brasília tem nos dado realizadores singulares, como José Eduardo Belmonte (do recente “A Concepção”), que renovam a forma de se fazer cinema no país e que fogem de fórmulas ultrapassadas e rançosas ainda praticadas por muitos cineastas.

Se pecam ainda com algumas falhas no roteiro, esses novos diretores nos deliciam com um experimentalismo técnico fascinante, procurando novas formas, e fugindo do lugar comum. Nem sempre acertam, mas ao menos estão tentando o novo, ao invés de repetir o “experimentalismo vanguardista” praticado nos últimos 40 anos.

Além da idéia original de filmar embaixo da água, o filme ainda merece destaque pelo seu elenco, muito bem preparado para as cenas. Bruno Torres, que ano passado se fez presente no Festival de Curtas como diretor, com “O Último Raio de Sol” (um dos filmes que mais me marcou na última edição), agora está em frente às câmeras e não faz feio. Mas a melhor atuação de “Sob o Encanto da Luz” é mesmo da quase sereia Larissa Sarmento. (Diego Nunes)

“Sob o Encanto da Luz” está no programa Panorama Brasil 6

1 comentário às 13:37 srizzo

A teoria da exponencialização

“Sketches”, de Fabiano de Souza, lembra muito o longa-metragem “Cubo”, no qual várias pessoas também acordavam em um ambiente sem saber como tinham parado lá. Lembra também o sadismo gratuito de “Jogos Mortais” e a violência de Quentin Tarantino.

A influência do cinema norte-americano é visível, a começar pelo título em inglês que já sugere fragmentação. E, em estilo devidamente cortado, mostra-se o embate entre dois encarcerados. Eles gritam um com outro, falam rápido e alto. Ameaçam se comer literal e sexualmente. Qualquer frase é necessariamente proferida como um confronto; o diretor parece não acreditar muito em silêncios ou sutilezas.

A seqüência é um embate fetichista de vários itens polêmicos dentro do cinema: a relação com drogas, o sexo (”você nem sabe enfiar o pau” e várias outras frases do tipo, algumas inclusive proferidas por uma criança), brigas. Na ausência de um gênero definido, tenta-se tê-los todos.

Paulo Emílio Salles Gomes dizia, já na década de 60, que seria cada vez mais comum os filmes tentarem sobrepor elementos para que a tensão entre eles fosse exponencializada. Assim, um filme de terror poderia juntar lobisomens, vampiros e bruxos numa mesma produção para tentar despertar um medo “três vezes maior”. Vários longas recentes, como “A Liga Extraordinária” e “Freddy vs. Jason”, tentaram explorar essa idéia, sem muito sucesso.

“Sketches” aparenta acreditar na mesma lógica. Todos os elementos de um filme de ação pulsante estão lá, menos o contexto que lhes conferiria sentido. Em seu curto tempo, o filme torna-se cansativo e não explora bem nenhum dos vários itens postos em jogo. (Bruno Carmelo)

“Sketches” está no programa Panorama Brasil 4

2 comentários 30 de Agosto de 2006 às 17:49 srizzo

Você também mataria um cachorro

O curta “Manual Para Atropelar Cachorro”, de Rafael Primo, tem estética relativamente comum: um tratamento pop em músicas, ritmo despojado e uma certa linguagem adolescente que faz o filme parecer um tanto leve. Quem visse o filme sem som poderia pensar até que se trataria de uma comédia qualquer. Mas o roteiro surpreende e nos apresenta um personagem muito especial.

Já discutimos anteriormente a tentativa de se mostrar o “homem comum” quando falamos sobre “Rapsódia Para um Homem Comum”. Naquele caso, a busca se dava através de um naturalismo que pouco convencia por tentar “embutir” complexidade em gestos gastos. O filme de Rafael Primo, por sua vez, faz outro caminho: pega uma metáfora improvável para que ela reflita o homem, tal como ele o vê.

De modo plenamente irônico, nosso protagonista bacana vai se mostrando, aos poucos, um sujeito racista, misógino, homofóbico e representante de vários outros preconceitos. E de noite, para relaxar, atropela cachorros. E, por incrível que pareça, não desperta raiva, não se torna vilão.

Trata-se de atrocidades que não costumamos ver no dia-a-dia, mas que refletem um pensamento vigente. É assustador suspendermos nosso senso moral ao não condenarmos um homem que parece estranhamente íntimo de nós. Constrói-se um bom reflexo da perda de valores e do tédio moderno através da banalização de algo que parece tão cruel. Enfim, um homem muito próximo do comum. (Bruno Carmelo)

“Manual Para Atropelar Cachorro” está no programa Panorama Brasil 8

2 comentários às 17:44 srizzo

Filha de peixe!

Confesso que fui à sessão e nem ao menos sabia que passaria um filme de Ava Gaitán Rocha, filha de Glauber. Aos poucos fui conversando com algumas pessoas e percebi que a grande atração do programa era justamente seu filme “Dramática”. Mesmo com uma hora de atraso na projeção devido a alguns problemas técnicos, a grande maioria do público permaneceu na sala.

Antes de ver o filme, fiquei me perguntando por que tanta expectativa em cima dela. A crítica espera que a genialidade de Glauber seja hereditária, ou está rondando, à espera de um deslize?

Entrei despretensiosamente e saí maravilhado com o trabalho de Ava. O filme é redondo, bem acabado, sem arestas a serem aparadas. A fotografia é precisa e muda delicadamente do início para o final.

A personagem passa da apatia gélida e bem-comportada ao transe, à entrega, ao tesão. O filme toma crescente constante. O tom profético de um senhor gritando no meio de uma praça ao som de um forte batuque, o close no rosto da personagem e sua libertação dão ao filme seu ápice. A montagem dá o tom do filme! Erik Rocha também acertou em cheio!

Tentei falar com Ava após a sessão. Pena que ela já tinha ido embora… Quem sabe ainda não consigo uma entrevista dela para o blog? (Bruno Logatto)

“Dramática” está no programa Panorama Brasil 3

1 comentário 29 de Agosto de 2006 às 12:42 srizzo

Milagres?

Sou fã de animações. Talvez por trazer um mundo mágico em cores, distintas das cores que vemos nas películas e nos vídeos. Cores que dançam, que dão vida a linhas e formas criadas pelo artista. O artista de que trato aqui é Allan Sieber.

Já conhecido pelo quadrinho “Vida de Estagiário” e pela divertida abertura do filme “Sou Feia, Mas Estou na Moda” (que aparece timidamente ao começo desta animação, como uma vinheta de televisão), Allan Sieber é um dos poucos quadrinhistas que hoje falam de personagens e fatos do Brasil com uma pitada de sarcasmo e realidade.

Aqui temos a história de Oséas, fumante e alcoólatra que, após perder a mulher para outro, se vê com sua filha, a pequena Aparecida, e faz uma promessa de que ela sairá no bloco de Carnaval de que participa vestida de santa.

A sátira é acerca das pessoas que não acreditam em Deus, mas que passam a vida à procura de um milagre. Temos deficientes físicos, gordos, magros, viciados, todos esperando uma cura para seus males.
É interessante como Sieber critica essa onda de religiões fervorosas, em que a salvação se faz através de “milagres”. O milagre aqui é o vôo de Aparecida, causado pela queimadura gerada pelo charuto do pai.

Milagre?

Creio que não. Milagres aqui, como Sieber mesmo propõe, são algo em que se acreditar, porém só nos libertamos dos males por nós mesmos. (Larissa Paschoal)

“Santa de Casa” está no programa Panorama Brasil 1

1 comentário 28 de Agosto de 2006 às 17:00 srizzo

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