Publicações arquivadas sob 2006: Mostra Latino-Americana

Cidade fantasma

Uma bela mulher retorna para casa meses após ter sido testemunha da morte de seu marido, que sumiu misteriosamente no rio em frente à mesma casa. A volta é triste, cheia de dores e lembranças. A casa está instalada no Delta do Tigre, região de abundante vegetação, na Argentina. A vida que reverbera sonoramente da floresta contrasta duramente com o abandono do lar. Seus objetos são mostrados friamente. Planos de torneira, de louças lavadas e bagunçadas sobre a pia, de uma porta de vidro e de uma caneca. A imobilidade desses objetos, unida às lembranças da protagonista em flash-back e sua óbvia tristeza, constróem uma sensação de perda, levando o local a um total esvaziamento da vida que um dia teve.

“Amancay” narra com admirável precisão e sutileza um momento de ruptura forçada. Uma ruptura fundada em um evento estranho e que não se explica durante o curta. A atmosfera bizarra é ampliada através de planos que sugerem subjetivas de um ente desconhecido. É o caso das cenas submersas, em que algo espreita de longe as pernas da protagonista que nada no rio em que seu marido sumiu. Todo o desenvolvimento do filme leva a crer que algo de fantasmagórico existe ali.

O interessante no filme é que o mistério que emerge da trama não é uma ferramenta para chamar a atenção do espectador para a própria trama, mas uma maneira de ir além dela. O último plano é muito forte e aposta em duas idéias que atravessam “Amancay”. São elas: a imobilidade dos objetos e o olhar fantasmagórico do mundo. Neste plano final, vemos de dentro da casa a mulher indo embora e fechando a porta. A câmera continua filmando a casa vazia por um longo tempo. A câmera é fixa, mas treme, pois não está no tripé. Esse olhar trepidante e de um ponto fixo para os objetos cria um estranho mal estar. Num primeiro momento, esse olhar não é mais de ninguém, não é mais do narrador, nem do espectador, nem da trama. Não tem uma função clara. Mostra-se um nada, formado por objetos abandonados. Com o transcorrer do tempo, esse olhar parece se tornar a subjetiva do fantasma que habita o local. E o ponto de vista dele acaba se tornando o do espectador; juntos, continuam a olhar nada além de objetos. Somos assombrados por essa nova perspectiva, em que o lado do fantasma nos é comum e o do mundo se torna o desconhecido. O mistério da trama opera uma reversão, apontando para o mistério que é a própria vida. (Marcos Piovesan)

“Amancay” está no programa Latinos 4

1 comentário 2 de Setembro de 2006 às 13:05 srizzo

Morte morta

Pequeno conto de horror formado por planos próximos e fragmentários, que no decorrer de oito minutos compõem uma geografia da morte. “Rotina” narra a vida de um homem que vive com a mãe, doente e de idade avançada. Para eles, todos os dias são iguais. Ele chega em casa do trabalho, liga a TV, que fica em frente à poltrona em que sua mãe sempre está sentada, limpa as fraldas dela, deixa no chão um prato com veneno em farinha para ratos, faz um mingau com leite e levanta do chão a mãe, que sempre se arrasta debilmente em direção ao veneno.

O apartamento que ambos dividem é mórbido e abandonado. O convívio com a sujeira chega a seu limite quando um rato tentar subir pelas pernas do protagonista. Ele se assusta e deixa cair o jarro de leite que usa no mingau. A partir daí, o filme deixa claro que a rotina a que o título faz menção não é a dos gestos e atos, mas do pensamento. Os eventos que sucedem à queda da garrafa mudarão os hábitos do protagonista, porém não mudarão seu estilo de vida, nem seu cotidiano de morte.

“Rotina” faz comentário bem feito à tal da “morte em vida” que muitos levam. Mas é um filme de horror que, apesar de possuir ótima foto, trilha e atuação, não trata com relevância a potência de horror de seu próprio tema. (Marcos Piovesan)

“Rotina” está no programa Latinos 4

Adicionar comentário às 12:59 srizzo

Novelar

Em “O Amor às Quatro da Tarde”, acompanhamos a história de uma socialite e sua empregada doméstica, que se envolvem de maneira não habitual através do interesse que ambas nutrem por uma novela romântica, que passa todos os dias às quatro da tarde.

A socialite está com a agenda lotada de compromissos, e a novela está em seus últimos capítulos. Por isso, ela pede com toda sua deselegância para a empregada deixar de trabalhar, assistir aos capítulos e lhe contar os pormenores no fim do dia. Tudo isso se dá de maneira gradual, com um crescente de envolvimento entre as personagens e a novela, levando a patroa a ceder cada vez mais aos pedidos da empregada. A graça de “O Amor às Quatro da Tarde”não está apenas na boa trama. Está principalmente na relação entre suas personagens. Apesar de elas representarem estereótipos, ambas demonstram tantas nuances e particularidades que ultrapassam o clichê.

Os momentos mais fracos são os de exagero de ação, pois se tornam tentativas forçadas de gerar o riso do espectador e ainda contrastam com a sinceridade do restante do filme. Apesar disso, “O Amor às Quatro da Tarde” não perde sua grandeza. Traz com simplicidade e despretensão um ar refrescante para o gênero cômico. (Marcos Piovesan)

“O Amor às Quatro da Tarde” está no programa Latinos 4

Adicionar comentário às 12:53 srizzo

Pela janela

“ ‘Paredes Vizinhas’ tem sido um filme arrasa-quarteirão nos últimos festivais.” Foi com essas palavras que o curta de Gustavo Taretto foi apresentado ao público antes de sua exibição.

Os minutos iniciais do filme já valem a sessão. Uma voz em off fala sobre a construção desordenada de prédios em Buenos Aires e como esse caos de edifícios influencia no caos de nossas vidas. Acho que não seria capaz de transcrever aqui o tom poético e imagético intrínseco à locução.

O curta então cai em uma comédia romântica inteligente. É óbvia a existência de alguns clichês para a caracterização do gênero: encontros e desencontros e o “happy end”. Tudo é feito em ritmo rápido e freqüentemente marcado por didatismo.

Marcados pela insegurança e pela solidão, as personagens buscam proteção ou, pelo menos, uma pseudoproteção encontrada atrás de vitrines ou da tela do computador. Os dois se vêem perdidos em meio à multidão e à gama de opções.

Os encontros e desencontros se dão através de janelas. Nota-se um paralelo entre elas: as janelas da fachada do prédio inseridas em anúncios publicitários e as janelas do chat que saltam na tela do computador. Nas duas formas, é estabelecida a comunicação com um desconhecido. Curiosamente, a mesma janela e a multidão que os separa acaba unindo-os posteriormente.

Se até então o filme havia sido encarado como um curta arrasa-quarteirão, a reação no Festival de São Paulo não foi diferente, confirmada pelo longo aplauso do público. (Gustavo Forti Leitão)

“Paredes Vizinhas” está no programa Latinos 1

1 comentário 1 de Setembro de 2006 às 10:53 srizzo

Brincando de boneca

Assistindo ao curta mexicano “Mojigangas”, cheguei a lembrar um pouco da minha infância, quando tinha muito medo das pessoas que participavam da Festa de Folia de Reis. A personagem Camila, em meio às suas brincadeiras de casinha, teve um medo semelhante ao meu, ao ver mascarados e fantasiados que celebravam alguma tradição da cultura mexicana. Tal curta trabalha a criança através do lúdico, do medo e da imaginação infantil.

Se “Mojigangas” opta por este caminho, o brasileiro “Barbie Problemas da Vida” mostra uma outra criança. O lúdico é deixado de lado, ou melhor, tratado de outra forma, com um olhar mais crítico, observador e investigativo.

A criança agora é a menina Yara Ligiéro, que, com questões voltadas para o campo social e político, desconstrói e reconstrói a boneca Barbie. A loira continua com o sorriso estampado no rosto, mas é flagrada em situações realmente inusitadas.

São dois curtas que valem pela imaginação infantil e também pelo humor. Cada um a sua maneira, ambos engraçados. (Gustavo Forti Leitão)

“Mojigangas” está no programa Latinos 3; “Barbie Problemas da Vida”, no Curta o Formato Brasil 4

Adicionar comentário 30 de Agosto de 2006 às 16:57 srizzo

Curta bem resolvido

Filmes curtos não foram uma característica predominante desse festival. Em meio a tantos 15 minutos ou mais, um documentário uruguaio de apenas três minutos ganhou destaque.

Em pouco tempo, o filme constrói uma história que funciona, sem, no entanto, deixá-la densa. Consegue passar a mensagem que deseja. É, portanto, um curta bem resolvido.

O belo que se instaura durante o curta todo tem como base principal o relato da vida de “Pinkus”. Música e fotografia são ornamentos indispensáveis que acrescentam beleza ao filme.

A música é tocada pelo próprio Pinkus. A fotografia se destaca por enquadramentos simples que optam por uma estética geométrica, constituída por linhas (do trem) e a criação da perspectiva.

Um curta curto, com uma história boa e ótima trilha. Bem resolvido do ponto de vista estético e narrativo. (Gustavo Forti Leitão)

“Pinkus” está no programa Latinos 3

Adicionar comentário às 16:46 srizzo

Dia 24 de agosto começa o Festival

Nesta quinta-feira acontece a abertura do 17º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo.

Durante o período do Festival, neste espaço, oito participantes da Oficina Kinoforum Crítica Curta de 2005 vão publicar neste espaço seus artigos de crítica sobre a produção deste ano.

Acompanhe.

Adicionar comentário 9 de Agosto de 2006 às 10:39 Kinoforum Crítica Curta


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