Publicações arquivadas sob 2006: Curta o Formato Brasil

Da crítica ao folclore

O documentário “Mataram meu Gato” começa muito bem. O tema parece ser polêmico! Ex-moradores de uma favela do centro do Rio de Janeiro falam sobre como foram expulsos da região. Um incêndio criminoso os obriga a ir para uma área afastada, chamada Nova Holanda. No antigo local, é construído um conjunto habitacional para a classe média.

Um contraponto feito na edição entre a versão dos moradores e a versão oficial, divulgada pela grande imprensa em telejornais da época, dá um tom crítico ao filme. Até aí tudo vai muito bem.

Mas um clima conformista passa a tomar conta do documentário. Um dos entrevistados chega a dizer sobre o incêndio criminoso: “É o custo do progresso”. A crítica, antes bem construída, dá lugar a um lado sentimental. A escola de samba Mataram meu Gato, título do filme, passa a ser o foco principal do curta. A abordagem inicial não é mais retomada.

Critiquei há alguns dias o filme “O Mostro” no texto “‘O Monstro’ e ‘O Progresso’” aqui no blog. Nesse caso, a visão de progresso dos grandes centros foi colocada em questão. O trem que vinha da cidade grande passava pela cidade pequena e atropelava o sossego de seus habitantes. Em “Mataram meu Gato”, a visão de progresso e a ambição das classes média e alta mandou os moradores de uma favela do centro para bem longe.

O filme não deu lugar para revolta e indignação; acabou sendo passivo e conivente diante de uma situação de miséria, observando a cultura popular local, fruto da exclusão e da desigualdade, com um olhar folclórico. O contraponto traçado com a grande imprensa no começo do filme foi esquecido. Com um ótimo material para edição, mas sem um direcionamento, o filme se perdeu. (Bruno Logatto)

“Mataram meu Gato” está no programa Curta o Formato Brasil 1

2 comentários 2 de Setembro de 2006 às 17:58 srizzo

A descoberta da imagem

Um filme muito simples chamou a atenção no programa Curta o Formato 4. Trata-se de “A Lente e a Janela”, de Marcius Barbieri. Praticamente silencioso, ele volta-se à imagem, e à descoberta da mesma por uma garota que ganha uma filmadora dos pais.

Inicialmente, a protagonista experimenta zoom e foco, filma cenas familiares. Logo, no entanto, encanta-se com a vista de sua sacada, algo que já lhe era disponível sem a câmera, mas que agora parece se apresentar como novo.

Ao começo de imagens aleatórias e sem rigor de enquadramento e composição, pertinente ao olhar infantil ainda não completamente educado no audiovisual, o filme começa a esboçar timidamente uma história, através de uma família de sem-tetos que mora em um jardim em frente ao prédio da garota.

Ela aos poucos filma as pessoas, suas ações diárias. Conhece através da lente essas pessoas que antes não lhe chamavam a atenção. E um dia descobre que eles partiram. Sai então até o parque, e tem pela primeira vez contato direto com os restos simbólicos da passagem daquelas pessoas pelo local. Os objetos deixados no gramado são filmados com calma e atenção.

Da vista de dentro de casa, a garota descobre algo que só a câmera pode oferecer. E parte para olhar aquilo que sempre esteve à disposição de seus olhos. Filme simples, com uma metáfora belíssima da transformação que o cinema pode causar na vida de alguém. (Bruno Carmelo)

“A Lente e a Janela” está no programa Curta o Formato 4

1 comentário 1 de Setembro de 2006 às 12:45 srizzo

Não perturbe o céu

“Teoria da Paisagem”, de Roberto Bellini, nos mostra somente céus e natureza. Em off, ouvimos uma conversa incomum entre o personagem-diretor, que segura a câmera, e um habitante da região filmada, que pede que ele não filme o céu.
Em resposta à óbvia pergunta de “por quê”, o morador diz que é para não incomodar. Argumenta-se que vai filmar pássaros, mas nada adianta. Alguém pode ver, e isso incomoda. O morador local diz inclusive que algumas pessoas foram presas por isso.

Logo, o ato de olhar a natureza vira uma transgressão. Cada nova paisagem mostrada parece fruto de voyeurismo e de rebeldia infratora. Um pôr-do-sol aparece rapidamente, e logo a imagem é cortada, como se nosso olhos pudessem feri-lo. Não só a paisagem vira algo raro e precioso, mas digno de respeito.

Em apenas três minutos, o filme nos propõe interpretar aquelas imagens gastas de um outro jeito, dando-lhes um novo valor e questionando nosso olhar mais automático, mais comum. E isso não é pouca coisa. (Bruno Carmelo)

“Teoria da Paisagem” está no programa Curta o Formato Brasil 4

Adicionar comentário às 10:58 srizzo

Os belos objetos de estudo

Dois filmes do programa Curta o Formato Brasil 4 chamaram atenção por serem documentários com uma questão peculiar em comum.

O primeiro, “Barbie Problemas da Vida”, foca uma garotinha com questionamentos político-sociais em uma profundidade atípica para crianças de sua idade. Ela transforma suas Barbies em seres feios e temáticos: Barbie do Iraque, Barbie Drogada, Barbie Mendiga. O segundo, “Negro e Argentino”, explora a história pessoal do diretor, nascido em uma família preconceituosa.

Ambos despertaram risadas e impressionaram pelo interesse nos objetos de estudo. Eram, de fato, pessoas e histórias inusitadas. Os dois filmes são curtos e, logo que mostram qual o interesse de seus objetos, terminam.

Por fim, embora vários tenham se impressionado, acabamos vendo filmes fracos. Os dois tentavam fazer com que a qualidade do objeto de estudo se transferisse ao filme, como se a mera apropriação de algo de interesse fizesse uma obra interessante — como todos os filmes que se apropriam de cenas comuns e tipicamente belas (pôr-do-sol, flores etc.) na intenção de que seus filmes fiquem, por conseqüência, belos.

Apropriar-se de um objeto instigante em um documentário não basta. O diretor deveria antes criar beleza, interesse, e não tentar se apropriar deles. A beleza e o interesse são artificiais na medida em que vêm de um desenvolvimento do autor, não podem ser encontrados prontos na natureza. Nada existente no mundo deveria ter valor em si, as coisas só ganham valor nos olhos de quem as vê. (Bruno Carmelo)

“Barbie Problemas da Vida” e “Negro e Argentino” estão no programa Curta o Formato Brasil 4

1 comentário 31 de Agosto de 2006 às 13:29 srizzo

Vídeo-arte-cinematográfica

E eu, que pensava que este festival era de cinema, me deparo com “Dormente” e percebo que: ou me enganaram, ou passaram a aceitar inscrições de trabalhos de vídeo-arte. Chamaram-no de “experimental”, mas a isso subentende-se experimentar alguma coisa, uma estética, uma narrativa, o que não é o caso.

Aqui, só se experimenta mesmo a trilha sonora, que tenta dar algum movimento – que não a câmera lenta – de verdade às imagens. Mas continua mais para vídeo-arte do que para cinema. Ou talvez seja eu quem não saiba nada de cinema e muito menos de cinema experimental. Ou talvez tenham mesmo me enganado e “Dormente” é vídeo-arte. Alguém me ajuda? (Thomás Marques Silva)

“Dormente” está no programa Curta o Formato Brasil 2

1 comentário 30 de Agosto de 2006 às 17:18 srizzo

Pérolas aos porcos

A sessão da qual “4:48 AM” faz parte foi uma grande surpresa para aqueles que puderam acompanhá-la. Primeiro porque viram um grande filme, capaz de inquietar, de refletir sobre a rotina, sobre pequenos atos, enfim, sobre a vida de cada dia. E, segundo, porque o diretor do filme, Cristiano Burlan, estava presente à sessão e brindou os espectadores com algumas pérolas do pensamento cinematográfico.

O filme começa com um longo plano de um homem acordando às 4:48 AM em seu quarto. E ponto. Durante alguns minutos, isso é tudo o que vemos: um homem acordando, tossindo, fumando, indo ao banheiro, se despindo, trocando de roupa e tudo o que um homem faz no intervalo entre despertar e sair de casa. Não é documentário, não é cinema-verdade, é apenas representação da realidade no cinema de autor. E cinema sincero, porque não engana o espectador com interpretações “pseudo profundas” e planos clichês, mas com emoção, emoção do dia-a-dia, da angústia da rotina, do massacre do trabalho, da vida que nos levam a levar enquanto achamos que a levamos. Um grande filme.

Mas o melhor ainda estava por vir. Ao ouvir perguntas dos espectadores, Cristiano expôs um pouco do seu pensamento cinematográfico ao criticar o processo de interpretação superficial imposto pela televisão (principalmente a Rede Globo). Depois, deu um tapa nos pré-conceitos de muitos presentes à sessão ao afirmar que não sabia que filmes deveriam passar mensagens e, quando ouviu críticas sem sentido sobre como deveria ter realizado “4:48 AM” (tem cabimento a petulância de um espectador dizer a um diretor como ele deveria ter montado seu filme?!), saiu-se com uma das melhores respostas que já ouvi na vida: “Faço meus filmes para mim, não para você!”. Dito isso, o autor da pergunta engoliu em seco, a sessão de perguntas foi finalizada, eu saí da sala com a impressão de que o filme era agora melhor do que cinco minutos atrás e com a certeza de que era uma obra boa demais para um público que não estava à altura. (Thomás Marques Silva)

“4:48 AM” está no programa Curta o Formato Brasil 2

1 comentário às 17:13 srizzo

Transubstanciando-se

Uma mesa de vidro, uma câmera na mão e um artista genial. Esse é o mote de “Eu Sou Como o Polvo”, documentário experimental sobre um dos maiores artistas brasileiros da atualidade. A câmera é do diretor mineiro Sávio Leite, o vidro é o suporte para um auto-retrato e o artista genial é Lourenço Mutarelli. Assim, durante cinco minutos, presenciamos o artista em seu processo criativo, desenhando-se no papel enquanto destila na tela um pouco da matéria que o constitui através de um texto belíssimo, recheado da poesia “deslocada” que caracteriza sua obra.

Lourenço quem?! Lourenço Mutarelli, quadrinista e romancista, dono de algumas das maiores obras publicadas no Brasil nos últimos 15 anos e, conseqüentemente, de alguns dos maiores prêmios em suas categorias, como o HQ MIX (diversas vezes) e o de melhor história em quadrinhos do milênio (para a genial “Transubstanciação”), ou ainda “O Cheiro do Ralo”, seu romance de estréia, levado às telas pelo diretor Heitor Dhalia.

Sávio Leite definiu seu filme como a expressão da “necessidade de fazer alguma coisa com o Lourenço”, de quem é fã confesso. Desse modo, o experimentalismo de sua obra se torna inescapável, quase determinado, definido por sua falta de experiência com “outra coisa que não seja a animação”, este sim, um terreno pelo qual transita com mais naturalidade.

Mas isso não é tão importante perto da magnitude de um artista como Mutarelli. O filme se sustentaria somente por aquilo a que se propõe retratar: um processo criativo. Mesmo para aqueles que conhecem seu trabalho depois de pronto, “Eu Sou Como o Polvo” não deixa de surpreender ao mostrar um outro Mutarelli, aquele calmo, tranqüilo, com fones nos ouvidos, distribuindo traços numa folha felizarda de papel, desenhando um de seus personagens mais caros, por ser real: o próprio Lourenço Mutarelli. (Thomás Marques Silva)

“Eu Sou Como o Polvo” está no programa Curta o Formato Brasil 2

1 comentário às 17:06 srizzo

Brincando de boneca

Assistindo ao curta mexicano “Mojigangas”, cheguei a lembrar um pouco da minha infância, quando tinha muito medo das pessoas que participavam da Festa de Folia de Reis. A personagem Camila, em meio às suas brincadeiras de casinha, teve um medo semelhante ao meu, ao ver mascarados e fantasiados que celebravam alguma tradição da cultura mexicana. Tal curta trabalha a criança através do lúdico, do medo e da imaginação infantil.

Se “Mojigangas” opta por este caminho, o brasileiro “Barbie Problemas da Vida” mostra uma outra criança. O lúdico é deixado de lado, ou melhor, tratado de outra forma, com um olhar mais crítico, observador e investigativo.

A criança agora é a menina Yara Ligiéro, que, com questões voltadas para o campo social e político, desconstrói e reconstrói a boneca Barbie. A loira continua com o sorriso estampado no rosto, mas é flagrada em situações realmente inusitadas.

São dois curtas que valem pela imaginação infantil e também pelo humor. Cada um a sua maneira, ambos engraçados. (Gustavo Forti Leitão)

“Mojigangas” está no programa Latinos 3; “Barbie Problemas da Vida”, no Curta o Formato Brasil 4

Adicionar comentário às 16:57 srizzo

Piada filmada. Pouco para o mito

Tento achar uma explicação para o tamanho sucesso de “Tapa na Pantera”, um dos filmes mais populares na internet hoje. Tecnicamente, é um filme bem feito, com luz e áudio adequados. Mas o roteiro nada mais é do que uma piada, uma brincadeira filmada.

Sim, o filme é engraçado, garante boas risadas. Mas não o suficiente para tamanho mito. Maria Alice Vergueiro está ótima, mas isso já era de se prever. Maria Alice é uma excelente atriz, uma das melhores que nosso país já viu. E o fato de protagonizar tal curta poderia ser a explicação para a repercussão do filme. De fato, é divertido e até impactante vê-la em tal papel.

Porém me pergunto, quantas pessoas que cultuam o filme sabem quem é Maria Alice Vergueiro? Ao fim da projeção, ouvi diversos comentários do tipo “será que a velhinha fuma mesmo?” e outras coisas do gênero, que conferiam ao curta a aura de documentário.

Não quero dizer que o público é ignorante por não conhecer Maria Alice, mas aposto que, se fosse uma atriz global, não levantaria tal questionamento. Se o curta fosse divulgado apenas como o novo filme da atriz, também não teria tanto sucesso.

Ah, sim, não posso fugir da questão óbvia. O filme é, supostamente, uma apologia à maconha. E essa é sem duvida a garantia de sua popularidade, a mesma que faz com que Marcelo D2 venda milhares de CDs porque canta que fuma maconha. Não quero ser moralista e fazer deste texto uma luta por uma vida saudável, anti-drogas ou qualquer coisa do gênero. Só que acho uma pena que um país com uma produção de filmes tão rica e criativa volte todas as suas atenções para o filme da “velhinha que fuma maconha”.

E apesar da fama pela suposta apologia, para mim o filme mais parece uma crítica, um deboche com aqueles que dão um tapa na pantera. Colocando-os, às vezes, numa situação que beira o ridículo.

Dizem que os cineastas que o fizeram irão fazer novas cenas com a atriz. Acho perigoso. Vai acabar tornando-se uma piada repetida, desgastada, que irá saturar o humor da obra. De cara, perderá seu choque inicial, talvez o maior destaque do filme. (Diego Nunes)

“Tapa na Pantera” está no programa Curta o Formato Brasil 1

1 comentário 29 de Agosto de 2006 às 12:58 srizzo

Silêncio que tortura

Angustiante. Essa é a melhor definição que consegui dar para “Saba”, filme de Gregorio Graziosi e Thereza Menezes.

O filme é bem feito, e tem alguns planos realmente belos. Uma visão diferente de coisas corriqueiras que passam despercebidas no cotidiano, como a água que escorre em uma escada durante uma faxina. Mas a beleza pára aí.

”Saba” mostra um casal idoso, que não sofre maus tratos, nem tampouco passa por grandes dificuldades. Porém, a rotina deles é esperar, em silêncio, vendo a vida passar, se é que ela já não passou.

O silêncio é uma constante que tortura. Nada acontece. E só resta observar o mundo lá fora, mas nem ele é muito interessante. “Saba” mostra um lado deprimente da velhice, mas extremamente real e feito de forma sensível. (Diego Nunes)

“Saba” está no programa Curta o Formato Brasil 1

2 comentários às 12:48 srizzo

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