Encontro às escuras
Enviado em 4 de Setembro de 2008
Publicado por srizzo | Enviar por e-mail
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O cinema de que trato é o cinema da certeza do encontro. A dúvida não é se o grande amor existe, mas de que forma se tornará imagem.
O exercício é enfrentado em “Engano”, de Cavi Borges, e “Noturno”, de Martín Deus e Thiago Carlan. Lançar mão de um olhar perspicaz sobre a vivência jovem do novo século – ainda que imersos em propostas que não se fazem pretensamente inovadoras – renova o ponto de vista acerca da profundidade emocional de um encontro casual no ônibus que termina num apartamento ou em um engano de telefone que mais parece um bilhete premiado. Ambos constroem cosmogonias muito peculiares e que se aproximam uma da outra ao apostar na sutileza e na recusa ao choque. As imagens que nos ofertam, de tão banais, fazem transbordar um maravilhamento com este mundo que reconhecemos como nosso. Imagens tão reais que nos permitem gozar de um romantismo tão “démodé” para nossos tempos tão fluidos. Mergulhados nessa fluidez os personagens estão: seja na virtualidade da linha do celular ou na efemeridade de uma conversa depois do sexo com um estranho nem tão estranho assim.
Instiga perceber que somos, assim como aqueles na tela, capazes de nos relacionar com o outro que nunca vimos, mas que podemos querer sentir. Essa forma de encontro, a mais inesperada, também é a mais plausível. Nossos heróis só estão em uma procura porque sabem que já acharam.
Um pouco dessa dor de ser tão jovem e tão vivo é um pouco da dor sentida pelo protagonista de “Esboço para Fotografia”, de Bruno Carneiro – se são tantos caminhos possíveis, como não temer não ter escolhido o correto? Virar a próxima esquina significa mudar completamente sua vida. Mas, se continuar reto, quem duvidará que seu grande amor não tropeçará à sua frente? E se atravessar a rua, não me surpreenderia se achasse no chão duas passagens sem volta para Paris. Nenhuma aposta é sem dor. Mas por que não se dar, nem que seja por alguns momentos, o prazer daquilo que chamamos acaso mas sabemos que é destino?
Trazer beleza e esboçar a felicidade daqueles que ousaram se encontrar, na fugacidade de uma conversa de três minutos e na eternidade efêmera de um plano-seqüência, é apostar na existência do amor ao primeiro frame. No mínimo, um sorriso logo no primeiro minuto. Que bem sabemos, jovens que somos, se estende para algo mais até mais tarde. (Yuji Kawasima)
“Noturno”, “Engano” e “Esboço para Fotografia” foram exibidos na Mostra Brasil 6, Mostra Brasil 7 e Mostra Brasil 6, respectivamente.
Olá, Yuji! Gostei bastante do seu texto e espero que fique claro que o comentário que segue não visa desqualificá-lo.
Mas só queria dizer que acho que “Engano” do Cavi merece um texto só para ele, analizando a relação entre estética e métodos de produção, quanto à questão do roteiro, a opção pelo plano seqüência e a consequente - e inevitável - abordagem jornalística-documental.