E agora, José?
Enviado em 1 de Setembro de 2008
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“Maranhão 66” apresenta-se como uma reportagem jornalística. É um documentário de Glauber Rocha produzido em 1966, dois anos após o golpe militar que depôs João Goulart. Chamado para filmar a “festinha”, Glauber registra a posse de José Sarney no governado do Estado do Maranhão e aproveita para mostrar as profundezas da miséria brasileira, que infelizmente ainda é arrasadora.
Glauber opõe as palavras falsas-declamadas de mais um José, um José político-latifundiário, a imagens de vários Josés, os acometidos pela pobreza. A voz exaltada de Sarney e seu belo discurso não são condizentes com o índice de analfabetismo da região:
“O Maranhão não quer a miséria, a fome, o analfabetismo, as mais altas taxas de mortalidade infantil e de tuberculose, de malária, de esquistossomose, como exercício do cotidiano. O Maranhão não quer e não quis morrer sem gritar. Não quis morrer estático de olhos parados e ficar maltratado, marginal ao progresso, olhando o Brasil e o Nordeste rir, enquanto nossa terra mergulhada na podridão não puder marchar nem caminhar.”
Marchar? Glauber, após o cantarolar de Sarney com as imagens dançantes de crianças em hospitais, lixo acumulado, falta de escola, falta de Tudo e imagens da Fome, entrevista, em um hospital, um doente que não poderia marchar pelo Brasil, José.
“Com chave na mão
Quer abrir a porta,
Não existe porta;
Quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
(…)
Você marcha, José!
José, para onde?”
(Trecho de “José”, de Carlos Drummond de Andrade)
Glauber Rocha se chamava Glauber de Andrade Rocha. Tinha o mesmo sobrenome do poeta. A família Sarney também tem seu sobrenome dominando (a política – hoje, no PMDB). A posse de Sarney, em 1966, marcou o início do domínio político da família Sarney no Estado, interrompido somente em 2006, com a posse do então governador Jackson Lago (PDT) que, ironicamente, também esteve envolvido em casos de corrupção. A filha de José Sarney é, atualmente, a excelentíssima senadora do Estado do Maranhão, mandato de 2003 a 2011. E seu pai é o atual e excelentíssimo senador do Estado do Amapá, mandato de 2007 a 2015.
“De homem para homem, de Deus para Diabo. Se morrer, nasce outro” – trecho do filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), de Glauber de Andrade Rocha.
Com ângulos que lembram a estética de Leni Riefenstahl, a diretora dos filmes de propaganda do NSDAP (Partido Operário Nacional Socialista Alemão, nazista), Glauber filmou Sarney e seus amigos em cima de palanques e a massa cega os aplaudindo: “Muito obrigado, meus amigos” (aplausos) – José Sarney no trecho final do curta em questão.
A política realmente está viva.
Termino essa crítica político-cinematográfica com um trecho de um dos manifestos do diretor de “Maranhão 66”, que provavelmente deve ter esquecido um último seis no nome da obra:
“Onde houver um cineasta, de qualquer idade ou de qualquer procedência, pronto a pôr seu cinema e sua profissão a serviço das causas importantes de seu tempo, aí haverá um germe do cinema novo.”
(“Eztetyka da fome”, Glauber Rocha)
(Camila Alves)
“Maranhão 66” foi exibido em um dos programas da Carta Branca ao Submarino Vermelho.