O espaço visto do alto
Enviado em 29 de Agosto de 2008
Publicado por srizzo | Enviar por e-mail
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Para os habitantes das grandes cidades, é difícil perceber a riqueza de acontecimentos presentes nos espaços públicos. Mergulhados no vaivém cotidiano, nunca paramos para observar os pequenos fatos que ocorrem numa praça pública, num parque ou mesmo nas ruas em que transitamos.
“Osório”, curta de Heloísa Passos e Tina Hardy, nos revela esses pequenos acontecimentos que, muitas vezes, testemunhamos sem notar. A princípio, o filme parece tratar de uma história de relacionamento ou um drama conjugal. A expectativa criada nas primeiras cenas indica isso. A garota se arruma, veste um vestido e, quando a câmera se descola do seu apartamento observamos, do alto, os transeuntes da praça General Osório, em Curitiba.
Um garoto jogando bola na chuva, um gari fazendo sua refeição noturna, um travesti apenas de passagem. Tudo filmado de longe, de cima dos prédios, mas em planos próximos; como recortes daquele cotidiano que precisa ser revelado. O enquadramento bem fechado tende a dar importância apenas àqueles personagens anônimos ou aos detalhes do espaço físico da praça.
Nas grandes cidades, as praças públicas perderam espaço e atenção para os shopping- centers e sua oferta de entretenimento. O tempo da praça não existe mais. É nisso que reside a magia de “Osório”, resgatar um tempo que precisamos redescobrir. Como um espectador à distância, observamos esses pequenos acontecimentos sem que sejamos notados. Testemunhamos um tempo que não nos pertence mais.
Além de contar histórias e trazer narrativas para as telas, também é papel do cinema chamar nossa atenção para fatos que de, alguma maneira, deixamos de lado ou não notamos mais. Como escreveu Walter Benjamin, esse olhar perscrutador que seleciona e impõe pode contribuir para aguçar nossa percepção. Um inconsciente que está presente, mas que precisa ser revelado. (Renato Batata)
“Osório” integra a Mostra Brasil 5.