Uma colina, uma casa, um homem e o céu em tom esverdeado. Um retorno à contemplação da imagem. Isso é “Ouço seu Grito” (“Ahendu Nde Sapukai”, no original), de Pablo Lamar. Apenas um plano-seqüência, a câmera fixa, contra a luz. A não ser pelo céu, que tem tons levemente esverdeados, tudo se transforma em sombras. A colina, o homem, os animais, a casa, como se o cinema voltasse aos seus primórdios, o teatro de sombras.
Nesse surpreendente curta de 13 minutos, o tempo é o grande personagem e a morte sua intérprete. Lamar nos transporta através das sombras para um tempo distante da realidade urbana. Os sons do campo, o tempo lento que segue o curso da natureza e o canto do cortejo fúnebre. Elementos que se completam com o desvanecer da imagem que se apaga lentamente, custando em deixar a tela. O homem, que assiste à vida e à morte passarem, se projeta em sombras. Desenhado pela luz, ele espera o dia em que o canto será entoado em sua homenagem.
A proposta é audaciosa; poucos conseguem manter a atenção e expectativa do público durante tanto tempo com apenas um plano-seqüência de câmera fixa. O êxito de Lamar é justamente a capacidade de manter o ritmo das ações que ocorrem na colina, de maneira que esperemos pacientemente pelo que vai acontecer. Enquanto a imagem desaparecia na tela (tão lentamente que é possível ver os contornos da colina e da cabana quase até o fim da projeção), um profundo silêncio tomou conta da sala. Aquele breve silêncio que dura até os créditos, mas que possuía algo de especial. Como se todos ouvissem seu grito, o silêncio é interrompido pelas merecidas palmas ao curta de Lamar. (Renato Batata)
“Ouço seu Grito” está nos programas Latinos 3 e Semana da Crítica.
Parabéns pela iniciativa de escrever sobre Ahendu Nde Sapukai.
salomão santana
28 Ago 2008