Kinoforum Crítica Curta 2008

Oficina de crítica do 19º Festival Internacional de Curtas-metragens de SP

Seu primeiro plano é vertiginoso. A câmera expande suas fronteiras visualizáveis a partir do chão de pedregulho para se pendurar pelo penhasco urbano do terraço de um prédio. De pronto já estamos imersos nesse mundo próprio construído pela eleição de um olhar tão peculiar. Olhar dos que transpõem os limites invisíveis com os quais as cidades se fazem construir. Ofertando asas ao documental, a sensível direção de Mariana Lacerda aposta justamente nos terrenos descobertos a partir de seus sobrevôos, surpreendendo e arrebatando os olhares que acompanham a escalada de vida de seu personagem: Tiago, o Menino-Aranha.

Meio Peter Pan, meio Robin Wood – não devido a suas habilidades extraordinárias ou práticas de delinqüente romântico, mas porque inteiramente humano –, Tiago é reconstruído a partir de relatos daqueles que tomaram contato não só com sua curta aventura pela Terra, mas também com aquilo que preferimos não enxergar nos que detêm capacidades fora do comum: suas fraquezas e vulnerabilidades.

A grandeza discursiva do filme reside na elucidativa trama que tece ao lançar mão das linhas do lado B de seu “herói”, ao não escolher essas feridas como ponto de partida para uma trajetória fadada ao fracasso, mas ao revelar a riqueza e o preço de uma existência inclassificável. Dessa forma, a direção se vê liberta, estética e discursivamente, de uma tradição “mosaicada” do menor infrator. Justifica-se então a preferência pelas belíssimas tomadas aéreas da arquitetura de Recife a planos fechados em depoentes, pelas falas calmas e consistentes embaladas por notas de piano a exasperações de lamentação ou provocação, pelo respeito à figura daquele que nem sabe que virou filme.

Ainda mais penetrante que seu primeiro plano, o último extermina qualquer dúvida acerca da veracidade da história contada: lá está um pequeno Tiago que nos olha tímido pela lente de uma câmera caseira em momento de sublime descontração. A prova de que a visão infinita de liberdade de um garoto capaz de escalar prédios de 33 andares pôde vencer as manchetes sensacionalistas e encontrar uma pista de vôo pela qual decolar.

Sendo assim, da mesma forma que Tiago põe em xeque a arquitetura do medo sob a qual sobrevivemos, “Menino-Aranha” questiona um fazer audiovisual que, na mesma medida em que é capaz de trazer ao mundo um Michael Phelps, pôde disseminar uma lenda urbana pelos andares, escadarias e parapeitos recifenses. (Yuji Kawasima)

“Menino-Aranha” integra a Mostra Brasil 2.

Um comentário para “ Sobre meninos e aranhas ”

  1. Destaco a sensibilidade da diretora, que mesmo estreante, deixa bem marcado uma linda narração sobre uma história real, que se tornou uma lenda urbana em Recife.

    Marcelo

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