“Metade dos alunos da FAAP mora em Alphaville” Da infantil forma de lidar com as perdas

Repetir e diferir

31 de Agosto de 2007 às 19:15 srizzo  | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 2911

Nos cursos de audiovisual, às vezes rola uma rixa saudável entre foto e som. Quem é mais importante, quem faz mais falta etc. etc. Eu poderia mentir, fazer-me de diplomático, criar uma ilusão de neutralidade, mas não: eu sou da turma do som. Não que a fotografia não seja imprescindível, mas faz quase 80 anos que o som ocupa um papel secundário no cinema. Fazendo uma generalização e um trocadilho horrorosos, pelo menos no tocante à realização do filme, a foto quase sempre fala mais alto que o som. Veja ali embaixo, na crítica de Gustavo Leitão, em que diz que “com o intuito de agilizar a produção no set de filmagem (…) o curta foi todo dublado posteriormente em estúdio”. Algo do gênero “estamos sem tempo, vai sem som mesmo!”. Além do mais, eu acho mais divertido torcer pelo azarão do que pelo favorito.

Após a projeção de estréia de “Gravidade”, Torquato Joel citou seu conterrâneo Augusto dos Anjos, poeta do carbono e do amoníaco. Deve-se imaginar, portanto, que, após seus filmes “O Verme na Alma” e “Transubstancial”, também seu mais recente trabalho tenha sido realizado sob o signo da morte e da putrefação.

O curta consiste em três planos-seqüência que três vezes descrevem a mesma situação: numa paisagem desolada, um homem nu vorazmente se alimenta. De lixo, de carne crua, de restos, não dá pra saber. Mas o som não é dos mais agradáveis.

Primeiro. Um acentuado plongée apresenta o espaço – insetos mortos, cinzas e ossadas. Tudo é cinza. O homem, nu, inclinado sobre seu alimento, bestializado, come com as mãos. Como já disse antes, o som é asqueroso. Asqueroso, mas fantasticamente editado. A espacialidade conseguida com a mixagem dos ruídos aumenta a força do belíssimo movimento de grua e situa o espectador na cena. Estamos aqui e agora.

Corte. Tudo preto. E eis que percebemos que voltamos ao princípio. (Será mesmo?). A mesma wasteland retorna, agora num movimento de grua sutilmente diferente – acompanhado pela nostálgica canção de Dalva de Oliveira, “Poeira do Chão”. “O que te dei em carinho / tu devolveste em traição / o que era um claro caminho / tornaste desolação.” O novo movimento de grua adiciona à desolação uma árvore e uma fogueira. Mas circulamos ainda ao redor desse ser humano primal. O que mudou? O que se mantém?

Terceiro. Chega de nostalgia: a trilha agora é marcada pela ambigüidade, em que batidas quase tribais co-existem com sons eletrônicos e distorcidos. Aponta-se não mais para o passado, e sim para o futuro, quão pós-apocalíptico seja. A mesma redoma suja de vidro, as mesmas ossadas, a mesma árvore, a mesma fogueira, o mesmo homem.
Sem narrativas fragmentadas, sem filtros exóticos na imagem ou efeitos estroboscópicos, “Gravidade” é um autêntico curta experimental – na medida em que investiga uma série de possibilidades de combinação de imagens e sons. Tais possibilidades, a rigor, poderiam ser estendidas ad infinitum, adicionando-se novos elementos a cada vez, e repetindo sempre a mesma cena, mas sempre de modo diferente – graças, principalmente, ao som. Em tempos de mp3, algo corriqueiro como ir ao supermercado caçar o jantar pode ganhar contornos tão diversos quanto desejarmos.

É um tanto irônico – embora nem por isso menos proposital – que, debaixo de sua pele mórbida, “Gravidade” convide a pensar sobre a vida. O que há de igual e o que há de diferente naquilo que se repete? Como emoldurar certo momento de modo a torná-lo único? Essas questões perpassam nossos cotidianos, esses dias sempre meio iguais – ainda que sem muitos vermes ou carcaças.

Como Torquato Joel começou o debate citando Augusto dos Anjos, acho adequado terminar a crítica citando outro grande poeta brasileiro, Manoel de Barros: “repetir repetir – até ficar diferente / repetir é um dom do estilo”. (Victor Gaspari Canela)

“Gravidade” integra o Panorama Brasil 6.

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