Movimentar e não cair: dois filmes, dois planos-sequências
31 de Agosto de 2007 às 18:44 srizzo | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 2463
Nada melhor do que um plano-seqüência bem realizado, não somente do ponto de vista da técnica, evidentemente, mas da sua utilidade e pertinência dentro do discurso audiovisual proposto: a mise en scène em sintonia com a proposta narrativa, os movimentos de câmera dialogando com a atmosfera dramática – enfim, a coesão daquilo que se conta com o modo de contar. Nossa, quando isso acontece é de tirar o fôlego e encantar os olhos de qualquer espectador. Dois filmes presentes no Panorama Brasil 4 são inteiramente construídos com um longo e único plano-sequência: “Sete Minutos” de Cavi Borges, Paulo Silva e Júlio Pecly, e “Vida Maria”, de Márcio Ramos. O primeiro é um filme escuro e cru, que aborda o acerto de contas entre dois traficantes numa favela carioca, e o segundo, uma animação clara, com cores quentes, mas que aborda também uma realidade crua: a perpetuação das más condições de vida para as mulheres no sertão nordestino.
Ambos os filmes trabalham o registro realista, a idéia de fatalidade e do ciclo a ser cumprido. “Sete Minutos”, cuja duração é justamente de sete minutos, além de ser um único plano-sequência, suas imagens correspondem ao ponto de vista de PC, o protagonista, ou seja, há o uso da câmera subjetiva. Dessa forma, o espectador é colocado no lugar da personagem e a intensidade dramática das situações aumenta: quando a câmera na mão, instável por natureza, se movimenta ainda mais ao simular a corrida da personagem; quando os transeuntes assustados “saem da frente da câmera”; ou quando as demais personagens se dirigem ao traficante e, portanto, olham diretamente ao público: vemos o seu olhar, a sua expressão emocionada em close. Certamente PC está raivoso, querendo se vingar de um outro traficante, mas, assim como ele, nós não sabemos onde encontrá-lo e muito menos os riscos que nos envolvem nessa busca. O ponto de vista subjetivo em plano-sequência, aliado à instabilidade da câmera, cria uma atmosfera de suspense e tensão, fundamental para a proposta narrativa do filme.
“Vida Maria”, como já dito, é uma animação feita em um único plano, que, embora possua cores fortes, quentes e trilha sonora levemente alegre, aborda um tema melancólico e cruel: o abandono, solidão e marginalização das mulheres do sertão nordestino. Diferentemente de “Sete Minutos”, os movimentos de câmera são estáveis, como se ela estivesse numa grua. A câmera acompanha, num único espaço físico (a casa de Maria), o passar dos anos da personagem, sintetizando sua vida e a enquadrando no ciclo comum às mulheres do Sertão: crescer, casar, ter filhos, envelhecer, e sempre trabalhar - não há espaço para a atividade intelectual e tampouco para o sonho. As elipses são construídas a partir de planos próximos e, quando o quadro volta a ser geral, o contexto de Maria está diferente: ela está moça, depois grávida, depois com filhos, depois idosa. A idéia de ciclo é obtida esteticamente pelo movimento de 360 graus que a câmera realiza durante o plano-sequência do filme. Quando a câmera retorna à sua posição inicial, vemos Maria, nossa protagonista, já idosa, reprimindo sua filha, que escreve o nome no caderno sobre o parapeito da janela (a mesma atitude a mãe de Maria teve com ela no início do filme). Nesse momento, a câmera se detém sobre o caderno da menina e, conforme as páginas viram com o vento, lemos os nomes escritos com caligrafia infantil: Maria de Fátima, Maria da Conceição, Maria de Lourdes etc., representando gerações e gerações de mulheres-marias que tiveram o mesmo fim que Maria protagonista.
Esses dois filmes são exemplos de como o plano-seqüência pode ser bem empregado no cinema contemporâneo, sem que se reduza a mero instrumento de fetiche na mão de jovens realizadores, como muitas produções recentes e menos recentes já nos revelaram. (Anahí Borges)
“Sete Minutos” e “Vida Maria” estão no Panorama Brasil 4.
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1 Comentário Faça seu próprio
1. Alexandre Nakahara | 1 de Setembro de 2007 às 03:12
Também gostei muito desse plano-sequencia de “Vida Maria”, mas acho ele perigoso demais. Sempre que vejo essa ciclicidade da vida no sertão nordestino nas telas do cinema, fico desconfiado. Meu principal medo é desse recurso acabar ludibriando, ou melhor, perder a crítica e ganhar uma tecnicidade e beleza que não leva à reflexão. Talvez minha visão de nordeste, de classe média paulistana, seja limitada demais, mas sempre que vejo essa mesma idéia retratada de novo, fico desconfiado. Não é possível que a vida seja tão hermética. Quando a forma do filme parece contribuir com tudo isso, tenho a certeza de que não é necessário mais dizer que o que acontece no nordeste, acontece faz muito tempo, é preciso apontar para lugares novos, se não novos, pelo menos que tiveram menos atenção nas telas.
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