Repetir e diferir

Da infantil forma de lidar com as perdas

31 de Agosto de 2007 às 19:22 srizzo  | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 8777

O mesmo tecido temático está presente em “Ícarus” e “O Silêncio dos Sapos”: perda de um ente familiar. Além de ambos tratarem da morte de um membro central da família (o pai em “Ícarus” e a mãe em “O Silêncio”), há também a escolha pela apresentação dessa perda pelo olhar infantil. Os dois curtas trabalham essencialmente como as crianças lidam com o acontecimento em si e também como passam a se comportar frente à lacuna que a morte significa em suas vidas.

“Ícarus”, de Victor Hugo Borges (já conhecido pelo incrível e bem-sucedido “Historietas Assombradas para Crianças Malcriadas”), narra a perda de um pai ausente que significava sua presença em um gesto simples que garantia o conforto e o carinho diário ao filho: todas as noites, o pai deixava o rastro de sua presença no quarto do filho cobrindo-o e movendo a face de um pequeno brinquedo, um robozinho, passando-a de triste para contente. A relação pai e filho apresentada neste velar do sono realizado diariamente pelo pai reforça o caráter onírico construído pelo curta.

Há um ambiente de sonhos e de símbolos imaginativos como o fato de o pai ser um aviador. A morte do pai é marcada e sabida pelo filho através do código íntimo criado entre os dois: o boneco amanheceu triste, confirmando a ausência permanente do pai. Até que um dia, surpreendentemente, o boneco volta a sorrir. O menino então é convidado pelo pai a voar todas as noites e assim sucede todos os dias “até que crescesse e ficasse pesado para voar”. O curta é meritório de elogios pela sua forma bela e original de apresentar uma questão que não é geralmente tratada de forma tão clara e, ao mesmo tempo, com um invejável requinte de elaboração da narrativa.

“O Silêncio dos Sapos”, da venezuelana Claudia Pinto, retrata o dia seguinte de uma casa após a morte da mãe. São três filhos que lidam, cada um de sua forma, com esse espaço vazio que se instaura no lugar que antes a mãe ocupava. Dessa forma, cada um elabora um universo de significados daquele momento, construindo toda uma forma individual de lidar com as latentes lembranças e a sofrível ausência de uma mãe que é apresentada como um pilar da vida daquelas crianças.

O fato de ser o dia seguinte à morte é algo que traz uma sensação (muito bem explorada no curta) de mistura de lembranças e presença até meio fantasmagórica da mãe, que se confundem com esse novo presente instaurado na casa. Isso é marcado, por exemplo, por um plano no qual o pai recolhe da mesa o copo sujo de batom da mãe. Há ainda a dualidade de imagens entre o presente da ausência materna e uma série de vídeos caseiros feitos pela própria mãe, na qual ela interage com a família naquele mesmo ambiente da casa. Essa jogada é muito rica narrativamente, pois a sensação que se tem é exatamente a retirada de uma peça fundamental daquele ambiente, potencializando um sentimento de ausência e perda de referencial para quem acompanha as imagens intercaladas. (Marcele Guerra)

“Ícarus” está no Panorama Brasil 1; “O Silêncio dos Sapos”, no programa Latinos 4.

Publicação arquivada em: Artigos: Mostra Latino-Americana, Artigos: Panorama Brasil

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