Kinoforum Crítica Curta 2008

Oficina de crítica do 19º Festival Internacional de Curtas-metragens de SP

Ser igual ou ser diferente? Quando podemos não nos identificar com nossos semelhantes?

“Aquele Cara”, animação muito bem elaborada de Rafael Coutinho, ousa discutir, em apenas seis minutos, o que psicanalistas (principalmente Freud) levaram anos e muitas obras.

A ação se desenrola em meio a uma comunidade de “polegares”, ou seja, todos os seus habitantes possuem cabeça de dedo, sem uma configuração de rosto detalhada.

Ao sermos rapidamente apresentados para esses homens-dedo, acompanhamos uma corrida alucinante de um ser “diferente”, imerso no vazio da semelhança. O homem com rosto parece estar assustado ao ver todos aqueles dedos a passear, namorar, trabalhar. Parece fugir de algo que não sabemos bem o que é.

Logo a incrível dessemelhança é percebida e o homem é perseguido implacavelmente. A diferença não seria permitida ou até mais, seria indício de algo inoportuno. Ao ver esse curta, lembrei-me de uma história do Astronauta, personagem de gibi do autor Maurício de Souza. Ao visitar um planeta, Astronauta encontrou pessoas que eram cindidas, ou seja, apenas metades. Hemicorpo esquerdo ou direito. Naquele planeta, era “normal” ser assim. Estranho era aquele ser inteiro, completo. O nosso herói com rosto passou por situação semelhante. Semelhante? Não, ele foi perseguido por ser dessemelhante, por não se enquadrar na média, por ter um rosto.

Na comunidade de homens-dedo, ser diferente é proibido, mesmo que a semelhança seja forjada. Ainda bem que não vivemos nessa comunidade. (Maurício de Carvalho)

”Aquele Cara” está no Panorama Brasil 5.

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