É incrível a familiaridade que percebemos em algumas (que fique claro, somente algumas!) produções vindas do Rio de Janeiro. Por um momento relutamos em aceitar, mas a realidade se impõe. A influência que a Rede Globo possui na cidade é mais do que uma forma de dominação da massa, é um estilo de vida que pode ser notado nos mínimos detalhes.
Não é diferente na produção universitária. A influência da TV se mostra até mesmo na construção dos currículos dos cursos de jornalismo. Na UFRJ, por exemplo, os alunos têm telejornalismo I, II, III e IV, formando assim futuros profissionais com práticas televisivas.
“O Cravo”, vindo da privada Estácio de Sá, não nega isso. A música melodramática e a opção por valorizar a historinha de amor carregam o filme com uma áurea folhetinesca. A todo momento ao longo de sua exibição, policio meus pensamento para levar em consideração o fato de ser um filme de estudantes, mas outras produções na mesma sessão não me deixam dúvidas quanto à qualidade precária do curta.
Um apresentador/narrador, que nos créditos aparece como um anjo (?!), conduz o telespectador à história de Mestre Romão, um maestro que nunca compôs nada. O tempo não linear é usado de maneira frágil, até mesmo incompreensível. Os atores são ruins e, mesmo que demonstrassem potencial, fica clara a falta de um bom preparador de elenco. A reconstituição de época se salva por um triz, pois nada do que aparece na tela é anacrônico.
A história em si tem sua força, afinal, é adaptação de um conto de Machado de Assis. Mestre Romão não consegue compor porque sua amada morreu enquanto ambos eram muito jovens. O impacto causou marcas profundas em sua alma, a ponto de travar-lhe a criatividade na arte de compor. Ora, acredito que não deva existir nada pior para qualquer artista o fato de ter que reproduzir a arte de outros, e nunca ver sua obra se materializando. Ele não deixará marcas no mundo. Nem o filme. (Ana Mesquita)
“O Cravo” está no Cinema em Curso 2.
Deixe uma resposta.