Kinoforum Crítica Curta 2008

Oficina de crítica do 19º Festival Internacional de Curtas-metragens de SP

“Uma Vida e Outra” conta a história de uma garota de 18 anos que se envolve com um homem mais velho e é abandonada por ele quando engravida. Durante o filme, o que está em jogo são os conflitos de Laura diante dessa situação e a sua dúvida em fazer ou não um aborto. O filme se pretende cru, sombrio e naturalista. Para tanto, Daniel Aragão se vale, dentre outros elementos, de diálogos agressivos entre as personagens e imagens em preto e branco contrastadas. Quando questionado, durante o debate, sobre o motivo que o levou a realizar essa obra, o diretor disse que ela é resultado de uma pesquisa que está desempenhando em Recife sobre a redoma de vidro em que vive a classe média, e o tema do aborto é algo muito presente nesse grupo social.

“O filme é um comentário sobre as possibilidades de escolha de cada um, num contexto como o de Laura, só isso”, disse Aragão ao público. Entretanto, para mim as questões em seu filme estão bem complicadas, incoerentes, contraditórias e, mais do que isso, irresponsáveis. O tema do aborto é tratado de forma sensacionalista, com direito a imagens da cirurgia em que vemos o embrião indo pro lixo e imagens de bebês e crianças sob os créditos finais, acompanhados por uma trilha sonora emotiva. A cena final é de um moralismo perturbador: após a cirurgia do aborto, Laura está deitada em sua cama e seus pais estão ao lado, comovidos com a atitude da filha. Então, a mãe solta a máxima: “todas podem ser uma boa mãe, para ser uma boa mãe basta querer”. Nesse momento, um close de Laura, que olha para a câmera com um sorriso mordaz. O que quer dizer esse sorriso? Por que o olhar ao público? No campo da linguagem cinematográfica mesmo: por que a ruptura narrativa e o anti-ilusionismo? Se o filme pretendia ser um comentário, qual é a posição do diretor diante do tema? Qual é seu comentário, afinal?

Pró-aborto, contra-aborto, Daniel Aragão não está sequer em cima do muro. Ele salta o muro, num vai-e-volta incompreensível. Ao mesmo tempo em que reconhece a dor de sua personagem diante da solidão e abandono, a condena pelo aborto, e em seguida a legitima em sua escolha. Pior do que essa inconstância toda no ponto de vista do narrador é a opção estética do diretor em utilizar como plano final de sua obra um olhar para a câmera, rompendo com o espetáculo narrativo. Um recurso equivocado, descontextualizado, esvaziado, gratuito e irresponsável que sequer Daniel Aragão soube justificar ao público quando questionado sobre ele. (Anahí Borges)

“Uma Vida e Outra” está no Panorama Brasil 4.

5 comentários para “ Por que o olhar para a câmera? ”

  1. acho que você não entendeu que no final ela conta pros pais que tá grávida, e não que fez o aborto. Pra que ela iria contar que fez o aborto!??! eu entendi como um tipo flashback, e o sorriso como se fosse algo do tipo “há, fodam-se, eu faço o que eu quiser.só eu sei msm oque é bom pra mim”. E quando o daniel explicou lá na cinemateca, eu entendi isso tb.

    não é um final moralista pq a grande questão do filme é se ela seria ou não uma boa mãe…e no final a mãe fala que só depende dela. o que é verdade.

    e no final não é fotos de bebes, são fotos dela quando criança…não percebeu?

    Joana

  2. “Para ver uam coisa é preciso compreendê-la. Apoltrona pressupõe o corpo humano, suas articulações e partes; a tesoura, o ato de cortar. O que dizer de uma lâpada ou de um veículo?O selvagem não pode perceber a bíblia de um missionário;(…) Se víssemos realmente o universo, talvez o entendêsemos”(There Are More Things - Jorge Luis Borges)
    Percebo grande dificuldade no fruir da obra, com isso o resultado é uma críticica superficial que coloca o objeto observado com algo initelígivel por não ser exato. Mas será mesmo que uma obra de arte precisa ter um caminho limitado, um percurso único? Desejo boa sorte e abertura de trilhar diversos significados.

    Bruna

  3. Concordo plenamente com as críticas que você apontou sobre o filme: o moralismo, gratuidade e pretensão estética me incomodaram muito e quase me fizeram abandonar a sessão (o meu amigo saiu da sala no meio do filme). Além dos créditos finais com fotos de bebês serem cafonas. Com relação ao comentário da colega acima, também concordo que a obra de arte deva propiciar diversas leituras ao espectador, mas especificamente com relação ao “Uma Vida e Outra” acho que esse discurso é uma forma de legitimar as deficiências de comunicação do filme, que, aliás, são muitas.

    Roberto

  4. Pois é, Anahí, pertinente esta sua pergunta: por que o olhar para a câmera? Arrisco dizer que depois que a Cabíria de Fellini olhou para a câmera uma vez bastou para que muitos realizadores simplesmente se sentissem no direito de repetir Fellini. Por muitas razões também não gostei de “uma vida e outra”, inclusive pela inconsistência no uso da linguagem cinematográfica, assim como no tratamento do tema aborto. Aliás, na onda da sua pergunta para questionar práticas gratuitas e pouco fundamentadas de realizadores, deixo uma outra que também me incomoda muito: Por que o uso do preto e branco?

    Renato Gomes

  5. Achei o filme bem executado. Não é nada demais, o filme. Cheio de problemas, concordo com os comentários. Mas não me incomodei tanto quanto vocês, acho que é porque eu não fico catando as referências ou preocupado com a estética da coisa, o roteiro é bem escrito e é um filme simples, então tudo certo! Mas, de qualquer forma, apesar de não ter curtido tanto, me espantei como é bem dirigida a cena do aborto, e como ela é uma elipse bem construída. Claro que é um cena, de uma certa forma brutal e irritante, mas eu fiquei chocado de verdade, tapei os olhos, me deu uma dor no estômago como nunca havia sentido vendo um curta-metragem - a forma que ele coloca o espectador como se estivessemos participando do aborto, plano parado em terceira-pessoa. Tem tanto curta por aí que nem sequer me prende atenção em nada, daí eu vejo esse com uma cena tão poderosa como aquela e realmente não posso negar que me bateu. Minha amiga saiu da sessão muito nervosa e xingando o diretor, com comentários parecidos com a da Anahí. O engraçado é que quando a cena que citei começou, essa mesma amiga segurou no meu braço com medo. Ou seja, ela se envolveu com o filme. Rs!

    João Marcelo

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