A história da imigração dos japoneses ao Brasil, ao contrário da imigração dos povos provindos da Europa, é muito pobre de cultura audiovisual. Diversas novelas retrataram famílias italianas, portuguesas, espanholas, mas poucas retrataram famílias japonesas. Também são poucos os filmes que trataram desse assunto. Extraordinariamente, duas ficções selecionadas para o festival mostram diferentes aspectos dessa cultura descuidada pelos meios audiovisuais.
A primeira, “Tori”, dirigida por Quelany Vicente e Andrea Midori Simão, trata de um costume freqüente em famílias japonesas, quando um dos filhos de uma família era levado para outra quando a primeira não tinha condições para cuidar dele ou por algum outro motivo, principalmente financeiro. Ambientado nos anos 50, o filme possui uma direção discreta, com câmeras mais estáticas e enquadramentos formais. Justamente isso é o que prejudica o filme. Ao confiar muito em vozes em off e ao preocupar-se demais com a sutileza de sensações contidas no cotidiano, ficamos com um enredo discreto demais para os olhos, embora seja tão interessante.
Já a segunda, “Primavera”, produção da ECA-USP com direção de Maurício Osaki, trata de uma geração mais atual e afastada dos costumes trazidos do Japão. Para o garoto da cidade que visita um templo japonês no interior, os costumes e ambientes são desconhecidos e assustadores. Ao longo do passeio, pequenos fragmentos que fazem parte de seu próprio passado vão sendo incorporados, seja no respeito aos mortos ou no conhecimento de alguns hábitos de outra cultura que de alguma forma ainda estão presente em sua vida, embora nem sempre constantes. A direção do filme é muito precisa e eficiente ao apontar esses pequenos pontos que florescerão no garoto durante sua própria jornada, quando se perguntar “Quem sou?”.
Um ano antes da comemoração dos 100 anos de imigração japonesa no Brasil, esses dois filmes são exemplos de que há muito a ser descoberto e redescoberto sobre esse assunto. Ainda existem muitas histórias boas a serem contadas, assim como imagens a serem vistas que talvez dividam espaço nas nossas imaginações com as diversas telenovelas e filmes de famílias italianas no Brasil e Estados Unidos. (Alexandre Nakahara)
“Tori” está no Panorama Brasil 4; “Primavera”, no Panorama Brasil 9.
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