Vagamente lembro-me de ouvir alguém me contando sobre a magia do papel do bombom Sonho de Valsa. Era só colocá-lo sobre as vistas que uma nova realidade se apresentaria: la vie en rose. Me confesso recém-saído da adolescência. Se levarmos em conta a grandeza da vida, digo que há pouco abandonei meu celofane cor-de-rosa. Trazê-lo de volta, ao menos por alguns poucos minutos, foi obra de “Saliva”, novo filme sensação (em todas as acepções da expressão) de Esmir Filho.
Em contraposição à monstruosidade com que o evento infanto-juvenil do primeiro beijo é mostrado na tela, temos um filme de temática muito simples, tão simples quanto o próprio evento se revela (apenas com a chegada dos anos) - ainda que no filme da memória individual seja mantida a cena do monstro particular que “Saliva” apresenta, mas não mostra.
A aventura de Marina em sua primeira decisão em relação ao próprio corpo é contada através de metáforas visuais, que revelam um apuro estético impecável comprometido com a obtenção de uma poética arrebatadora. Não vejo problemas em uma suposta concepção visual anteceder a delimitação da narrativa e do contexto dramático, uma vez que considero o desejo por construções de imagens tão digno da posição de inspiração quanto a também essencial vontade de se contar uma história. O discurso é único – o da garota; os eventuais diálogos são entre as vozes que vivem se digladiando dentro dela mesma. Logo, se a narrativa é contada a partir da cabeça e do corpo dessa garota, vemos/sentimos a mistura tensa de seus questionamentos e ações transformados em imagens. Sendo assim, a estética não se faz gratuita ou inoportuna: a imagem produz aquilo que só poderia ser imagem – estados de alma, produtos dos pensamentos provocados pelas sensações de quem beija, pensa mas não fala.
Por isso mesmo, o filme acaba apresentando sua própria profundidade (profundidade na qual mergulha Marina?) brotada no terreno da simplicidade. Afinal, qual experiência por mais simples que seja não pode ser profunda?
Ainda que essa gravidade transmitida pelo filme seja obtida através de planos e de uma montagem altamente calculados, estes apresentam brechas por onde correm as delícias provadas por quem se deixa levar consciente ou inconscientemente pelos mesmos e que não negam as contribuições que a experiência pessoal de cada espectador pode oferecer à sua própria interpretação. De forma alguma se comprometem o privilégio e a honra de acompanhar um momento tão íntimo de alguém que descobre o novo arriscando seu tempo particular.
Saio da sessão ainda meio atordoado. Quem me dera ter de volta a leveza pueril e o mesmo entendimento acanhado que a atriz principal sentada na poltrona de minha frente revelava em sua risada reprimida e em seu balançar de nuca ao se ver na tela.
Mal sabia ela que também me via. (Yuji Kawasima)
“Saliva” está nos programas Panorama Brasil 3 e Semana da Crítica.
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