Kinoforum Crítica Curta 2008

Oficina de crítica do 19º Festival Internacional de Curtas-metragens de SP

Poucas animações conseguem me prender.

Surpresa foi me deparar concentrado em fruir aquilo que “Lapsus”, de Juan Pablo Zaramella, tem a oferecer – animação pura e simples.

A cartela de cor é reduzida a seus extremos: branco e preto, cores com as quais a tela é bipartida. A tela é palco (altar?) do excêntrico personagem que tem em “Oh, my God!” seu salmo, mantra, língüa oficial, piada pronta.

Classificar a obra de maniqueísta (termo exagerado para uma animação inocente?) pode ser até mesmo uma linha de raciocínio tentadora. Lá estão os símbolos da Igreja, seu representante, a tentação, a ressurreição, a assunção, o céu e o inferno. Contudo, vivendo a vida que a própria me oferece, me soa aborrecidamente ultrapassado tratarmos de “Lapsus” apenas e especificamente dentro desse campo semântico.

Se não fosse o código binário de nossos computadores, você não poderia estar sentado em frente à sua tela lendo este texto. Muito menos este texto poderia existir. E se (retomando Clarice Lispector) uma molécula dissesse não, ao invés de sim, teria a vida nascido? Pois bem: se vivemos em um mundo que se apresenta na maioria das vezes em estado binário, não nos é de estranhar que uma despretensiosa animação retrate, na via do humor, o dialogismo existente na dicotomia.

Luz e trevas, contornos e preenchimentos, opostos que se atraem e passam a ser a mesma coisa, ainda que permaneçam contrários. Estranho? Não tanto quanto a estranheza pode ser divertida. A brincadeira com a percepção do espectador é latente, interpretativa e visualmente. O intercâmbio das formas transmutáveis formativas do corpo do personagem entre o lado positivo e o negativo produz porções daquilo que a animação vem trazendo ao universo audiovisual desde suas origens – descompromissada inventividade.

E se, ao final, um dos lados vence a natural e inevitável disputa, a conclusão que se tem é a de que tentar acabar com o oposto é conseguir acabar consigo mesmo.

Simples, assim. (Yuji Kawasima)

“Lapsus” está no programa Latinos 5.

Um comentário para “ P&B, pequenino & brilhante ”

  1. Oh my god! gostei mesmo, mesmo. mas vou guardar minha saliva digital e gastar minha saliva biológica daqui a pouco.

    Regiane Ishii

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