Kinoforum Crítica Curta 2008

Oficina de crítica do 19º Festival Internacional de Curtas-metragens de SP

A sensação quando o letreiro de “Praznik” aparece na tela já adianta algo que permanece durante todo o filme: deslocamento. Eu mesma pensei, quando o filme iniciou com um concerto e um depoimento de um músico russo: “O projecionista deve ter se enganado, esse filme não é da seleção latina…”. Pobre projecionista. Minhas sinceras desculpas. O filme pertencia, sim, àquela sessão e, com toda perspicácia da opção da diretora, apresentava-se como um filme tipicamente “internacional”. Aos poucos, descobre-se que se tratavam de russos que moravam no México.

O filme narra uma celebração depois de um concerto na casa de um anfitrião russo, festejo típico com comidas, músicas e muita, mas muita mesmo, bebida. A câmera passeia indiscretamente por esse ambiente extremamente restrito e familiar, e vez ou outra a observação do festejo é entrecortada por depoimentos. Sempre em língua russa. A questão da língua é fundamental para causar um estranhamento e reforçar o deslocamento daquela situação. Durante todo o filme, o espanhol somente entra pela voz de uma mulher, em breve comentário sobre sua origem distante, ou então em gritos de “Viva México!”.

Pelos depoimentos é possível construir as trajetórias daquelas pessoas vindas de longe e que faziam do México a sua casa. “Eu adoro o México!”, ouve-se em alto e ébrio russo em muitas das falas. O sonho americano estende-se para um sonho mexicano pois fica clara a felicidade de morar na “América” e ganhar em “dólares americanos”. Grande sacada crítica de focar essa contraposição Rússia/América sendo concretizada no México, país inegavelmente pertencente à periferia do capitalismo e descrito como “paraíso” entre vodkas e cantorias que trazem letras sobre a saudade de quem se foi.

O que fica desse curta é a sensação muito bem tratada de um deslocamento que traz boa reflexão sobre o pertencer e o partir, e também o reencontrar-se e adaptar-se. A sensação de que as imagens poderiam ter sido gravadas em qualquer lugar do mundo traz um fechamento charmoso para a linguagem poética de “Praznik”: o olhar da câmera focou aquelas pessoas que ao mesmo tempo não necessariamente representariam o conhecido espírito ou espaço mexicano, mas pela escolha narrativa e por aceitarmos a informação de que tudo aquilo se passa no México, acabam por simbolizar. (Marcele Guerra)

“Praznik” (“Celebração”) está no programa Latinos 5.

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