Kinoforum Crítica Curta 2008

Oficina de crítica do 19º Festival Internacional de Curtas-metragens de SP

Quando se desprende da poderosa força do verbo, quando se agarra em sua essencialidade – sons e imagens –, é que a força do cinema se revela em toda sua potência. Estou rendido.

Condói-me esta (estapafúrdia) tentativa de transformar impressões pessoais de “Hoje Não Estou” em conjuntos de letras em seqüência que possam fazer algum sentido. Seria como preferir que o curta de Gustavo Taretto tivesse seus planos manchados pela prolixidade das palavras. Mas se o cinema pode transformar angústias tão profundas como a do protagonista Martin em doces minutos de deleite visual, por que não deveria eu buscar os motivos pelos quais esse filme me toca?

“Hoje Não Estou” nada mais é que uma comédia muda aos moldes do século passado. Corrijo-me. Irresponsável o termo “nada mais”. “Hoje Não Estou” resgata a sensibilidade do gênero de cerca de 100 anos atrás para então narrar o que só pode ser compreensível neste novo século: o desejo de não existir. Ao menos por hoje.

Os planos chapados do filme revelam a acuidade com o trabalho de arte. Revelar o grafismo de uma grande cidade sul-americana na telona, através de sua própria materialidade concreta ou utilizando-se da potencialidade criadora da luz, tem como um de seus momentos de graça lances de uma escada caracol totalmente planificados. Nesses cenários, como que quadros pintados com formas geométricas, Martin caminha a seu modo e esconde-se do Outro.

Sendo assim, o filme não cai na fácil argumentação redutora do velho embate entre o Homem e a Cidade. A arquitetura não oprime o personagem, não pesa sobre ele, não o esmaga, ainda que ocupe quase a totatalidade do quadro em vários dos planos. Lá está ela para auxiliar o solitário herói em sua irrefreada missão de não existir. Como que extensões de seu corpo, a urbe se torna artifício, dispositivo a favor desse pioneiro, que e porque vive a vida do novo século.
A dor não é historicamente moderna no sentido do sujeito sem seu lugar no mundo. É essa dor algo mais contemporâneo do que se possa imaginar: é a ânsia de transformar o mundo em seu lugar (estritamente particular) passando a não mais existir no mundo — aquele que é de todo mundo.

Sumir e fazer-se esquecido. Incomunicável e invisível. Se em “Medianeras”, filme anterior do mesmo diretor, seus protagonistas sofriam na busca pelo outro numa sociedade altamente conectada, o caricato protagonista do filme da vez percorre o caminho contrário. Desconecta-se.

Será?

Seu criador parece se livrar do senso comum que atribui ao modelo atual de vida urbana o grau de incomunicabilidade dos indivíduos e por conseqüência a impossibilidade de relacionamento humano. Na sociedade em que as redes são intensamente conectadas em contraposição ao coexistente vazio individual, ou ainda, em que a coletividade é inevitável mas o contato interpessoal pode ser indesejável, Taretto parece acreditar na conexão. Mesmo que entre aqueles que desejam se desconectar.

Se um filme nos toca justamente por fazer doer ainda mais nossas próprias dores, “Hoje Não Estou” faz jus ao seu rótulo “cinema”. E se consegue arrancar estados de graças (no plural, pois refiro-me àquelas humorada e sublime) é porque merece a qualidade de belo.

Sem mais palavras, só me resta silenciar. (Yuji Kawasima)

“Hoje Não Estou” integra o programa Latinos 4

Um comentário para “ Se estou na esquina ”

  1. crítica tão sensivel quanto o filme.Só observo, não comento! parabéns.

    Renata

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