Kinoforum Crítica Curta 2008

Oficina de crítica do 19º Festival Internacional de Curtas-metragens de SP

Uma bela mulher retorna para casa meses após ter sido testemunha da morte de seu marido, que sumiu misteriosamente no rio em frente à mesma casa. A volta é triste, cheia de dores e lembranças. A casa está instalada no Delta do Tigre, região de abundante vegetação, na Argentina. A vida que reverbera sonoramente da floresta contrasta duramente com o abandono do lar. Seus objetos são mostrados friamente. Planos de torneira, de louças lavadas e bagunçadas sobre a pia, de uma porta de vidro e de uma caneca. A imobilidade desses objetos, unida às lembranças da protagonista em flash-back e sua óbvia tristeza, constróem uma sensação de perda, levando o local a um total esvaziamento da vida que um dia teve.

“Amancay” narra com admirável precisão e sutileza um momento de ruptura forçada. Uma ruptura fundada em um evento estranho e que não se explica durante o curta. A atmosfera bizarra é ampliada através de planos que sugerem subjetivas de um ente desconhecido. É o caso das cenas submersas, em que algo espreita de longe as pernas da protagonista que nada no rio em que seu marido sumiu. Todo o desenvolvimento do filme leva a crer que algo de fantasmagórico existe ali.

O interessante no filme é que o mistério que emerge da trama não é uma ferramenta para chamar a atenção do espectador para a própria trama, mas uma maneira de ir além dela. O último plano é muito forte e aposta em duas idéias que atravessam “Amancay”. São elas: a imobilidade dos objetos e o olhar fantasmagórico do mundo. Neste plano final, vemos de dentro da casa a mulher indo embora e fechando a porta. A câmera continua filmando a casa vazia por um longo tempo. A câmera é fixa, mas treme, pois não está no tripé. Esse olhar trepidante e de um ponto fixo para os objetos cria um estranho mal estar. Num primeiro momento, esse olhar não é mais de ninguém, não é mais do narrador, nem do espectador, nem da trama. Não tem uma função clara. Mostra-se um nada, formado por objetos abandonados. Com o transcorrer do tempo, esse olhar parece se tornar a subjetiva do fantasma que habita o local. E o ponto de vista dele acaba se tornando o do espectador; juntos, continuam a olhar nada além de objetos. Somos assombrados por essa nova perspectiva, em que o lado do fantasma nos é comum e o do mundo se torna o desconhecido. O mistério da trama opera uma reversão, apontando para o mistério que é a própria vida. (Marcos Piovesan)

“Amancay” está no programa Latinos 4

Um comentário para “ Cidade fantasma ”

  1. muito sinistro este filme.
    bem assustador.
    parabens diretor pelo filme!

    laiza

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