Arquivo de Agosto de 2006

Um micro-universo pequeno demais

“Amsterdam” é, segundo o próprio diretor definiu no debate após o filme, uma “tentativa de retratar um gueto paulista”. Bom, percebe-se que se trata de uma tentativa frustrada. Aliás, o filme não passa de um retrato. Nada mais. Os diálogos são pobres, a interpretação dos atores deixa a desejar e o tema é totalmente irrelevante.

Um romance adolescente sobre um dois freqüentadores da Galeria do Rock, refúgio de apaixonados por música e cultura underground. O garoto (Cabeça) está começando a fazer tatuagens. Sua namorada (Deyse) apóia e incentiva seu trabalho, mas todos acham que ele não tem talento para a coisa.

O filme não propõe crítica ou reflexão. Não aprofunda nenhum tema. Os diálogos são vazios, rotineiros, retratam um micro-universo de pessoas com gostos em comum, nada mais.

Um filme feito por um diretor apaixonado por esse universo presente na galeria, mas que não conseguiu distanciamento suficiente para poder falar sobre o tema. (Bruno Logatto)

“Amsterdam” está na mostra Panorama Brasil 8

1 comentário 31 de Agosto de 2006 às 19:11 srizzo

Prata da casa

“Viva Volta”, de Heloisa Passos é um desses documentários que todos deveriam ver. A diretora resgata, com muita sensibilidade, o trombonista Raul de Souza, artista brasileiro renomado no mundo inteiro, mas completamente ignorado no seu país.

Apesar de fazer esse resgate, a diretora consegue evitar o sentimentalismo barato no qual o filme poderia cair. Não tem tom nostálgico ou de indignação pela injustiça por aqui cometida. Tem, sim, a figura carismática que é Raul, enquadramentos bonitos de se ver, e uma música deliciosa. Quer mais um motivo? Maria Bethânia faz uma participação, muito bem à vontade ao lado do amigo. (Diego Nunes)

“Viva Volta” está no programa Panorama Brasil 6

Adicionar comentário às 13:55 srizzo

Perdeu-se pelas crianças

“Super Flufi”, de Tula Anagnostopoulos, é um filme com bom roteiro, produção bem feita, e que se utiliza de um excelente recurso de animação. Mas o filme tem um erro grave, que consegue acabar todo o trabalho realizado: a escolha do elenco. Com exceção dos atores que interpretam os pastores no culto televisivo, o resto é completamente equivocado, inexpressivos e forçados.

O filme tenta mostrar a grandiosidade de um universo infantil. Tenta, mas não consegue, e se perde principalmente na direção das crianças. Dirigir criança não é uma tarefa nada fácil, e começa já na seleção.

No Brasil, comete-se o grande equivoco de confundir crianças engraçadinhas com boas atuações. E, às vezes, uma criança que fala errado, meio chatinha, com a naturalidade de um robô, num primeiro momento pode parecer uma boa escolha, mas na verdade é uma escolha viciada, baseada no padrão de atores mirins vistos nas novelas globais ou nos calouros do Raul Gil. Uma gracinha de menina nem sempre é uma boa atriz. E a idade não justifica a falta de coerência em cena. Uma atuação mirim ruim, quando colocada num papel principal, faz um estrago absurdo na obra. Quando cercada de atores adultos também ruins, não há esforço técnico que salve.

Crianças ou não, má escolha dos atores destrói todo o trabalho de um curta-metragem. (Diego Nunes)

“Super Flufi” está no programa Panorama Brasil 6

3 comentários às 13:52 srizzo

Quase delírio

Fui assistir a “Sob o Encanto da Luz” pelo cenário um tanto quanto curioso. Confesso que me surpreendi.
O filme de Dirceu Lustosa foi praticamente todo feito embaixo d’água, e tem imagens que literalmente tiram o fôlego. Com um bom jogo de câmeras, Lustosa poderia ter recorrido ao documental, ou mesmo a uma colagem visual, o que já garantiria ao filme um grande crédito.

Mas o diretor brasiliense foi além. Criou um enredo, quase delírio reforçado pelos efeitos luminosos que incidiam na água. Tudo bem, a história deixou um pouco a desejar, mas gostei da ousadia estética, típica dos novos realizadores de Brasília. Particularmente, acho bem interessante a recente produção que vem de lá. Brasília tem nos dado realizadores singulares, como José Eduardo Belmonte (do recente “A Concepção”), que renovam a forma de se fazer cinema no país e que fogem de fórmulas ultrapassadas e rançosas ainda praticadas por muitos cineastas.

Se pecam ainda com algumas falhas no roteiro, esses novos diretores nos deliciam com um experimentalismo técnico fascinante, procurando novas formas, e fugindo do lugar comum. Nem sempre acertam, mas ao menos estão tentando o novo, ao invés de repetir o “experimentalismo vanguardista” praticado nos últimos 40 anos.

Além da idéia original de filmar embaixo da água, o filme ainda merece destaque pelo seu elenco, muito bem preparado para as cenas. Bruno Torres, que ano passado se fez presente no Festival de Curtas como diretor, com “O Último Raio de Sol” (um dos filmes que mais me marcou na última edição), agora está em frente às câmeras e não faz feio. Mas a melhor atuação de “Sob o Encanto da Luz” é mesmo da quase sereia Larissa Sarmento. (Diego Nunes)

“Sob o Encanto da Luz” está no programa Panorama Brasil 6

1 comentário às 13:37 srizzo

Os belos objetos de estudo

Dois filmes do programa Curta o Formato Brasil 4 chamaram atenção por serem documentários com uma questão peculiar em comum.

O primeiro, “Barbie Problemas da Vida”, foca uma garotinha com questionamentos político-sociais em uma profundidade atípica para crianças de sua idade. Ela transforma suas Barbies em seres feios e temáticos: Barbie do Iraque, Barbie Drogada, Barbie Mendiga. O segundo, “Negro e Argentino”, explora a história pessoal do diretor, nascido em uma família preconceituosa.

Ambos despertaram risadas e impressionaram pelo interesse nos objetos de estudo. Eram, de fato, pessoas e histórias inusitadas. Os dois filmes são curtos e, logo que mostram qual o interesse de seus objetos, terminam.

Por fim, embora vários tenham se impressionado, acabamos vendo filmes fracos. Os dois tentavam fazer com que a qualidade do objeto de estudo se transferisse ao filme, como se a mera apropriação de algo de interesse fizesse uma obra interessante — como todos os filmes que se apropriam de cenas comuns e tipicamente belas (pôr-do-sol, flores etc.) na intenção de que seus filmes fiquem, por conseqüência, belos.

Apropriar-se de um objeto instigante em um documentário não basta. O diretor deveria antes criar beleza, interesse, e não tentar se apropriar deles. A beleza e o interesse são artificiais na medida em que vêm de um desenvolvimento do autor, não podem ser encontrados prontos na natureza. Nada existente no mundo deveria ter valor em si, as coisas só ganham valor nos olhos de quem as vê. (Bruno Carmelo)

“Barbie Problemas da Vida” e “Negro e Argentino” estão no programa Curta o Formato Brasil 4

1 comentário às 13:29 srizzo

Formando olhares críticos

Um dos filmes mais inteligentes que vi no festival deste ano não está entre os mais comentados e muito menos em mostras de destaque. “A Reinauguração do CAPS”, criação coletiva resultado de uma das oficinas realizadas pela Kinoforum, consegue ser extremamente crítico e bem-humorado.

Trata-se de entrevistas com os convidados da festa de reinauguração do CAPS (Centro de Atenção Psicosocial) no Rio de Janeiro. O entrevistador percorre a festa ironizando os convidados. Pergunta para o prefeito da cidade “o que é o CAPS” e para a psicóloga do centro o que é “psicosocial”. As respostas são, na maioria das vezes, vazias. O prefeito chega a passar a resposta da pergunta para a arquiteta responsável pela reforma, esquivando-se das câmeras. As entrevistas com os pacientes dão voz a uma versão “não oficial” da festa.

A partir do material colhido é feita uma montagem precisa, os cortes dão o tom de ironia e crítica em relação da festa. Se a fotografia e o enquadramento ruins não atendem ao que chamamos de um “bom filme”, isso não interfere em nada no andamento e na compreensão do curta. (Bruno Logatto)

“A Reinauguração do CAPS” está na mostra Formação do Olhar 3

1 comentário 30 de Agosto de 2006 às 23:02 srizzo

A teoria da exponencialização

“Sketches”, de Fabiano de Souza, lembra muito o longa-metragem “Cubo”, no qual várias pessoas também acordavam em um ambiente sem saber como tinham parado lá. Lembra também o sadismo gratuito de “Jogos Mortais” e a violência de Quentin Tarantino.

A influência do cinema norte-americano é visível, a começar pelo título em inglês que já sugere fragmentação. E, em estilo devidamente cortado, mostra-se o embate entre dois encarcerados. Eles gritam um com outro, falam rápido e alto. Ameaçam se comer literal e sexualmente. Qualquer frase é necessariamente proferida como um confronto; o diretor parece não acreditar muito em silêncios ou sutilezas.

A seqüência é um embate fetichista de vários itens polêmicos dentro do cinema: a relação com drogas, o sexo (”você nem sabe enfiar o pau” e várias outras frases do tipo, algumas inclusive proferidas por uma criança), brigas. Na ausência de um gênero definido, tenta-se tê-los todos.

Paulo Emílio Salles Gomes dizia, já na década de 60, que seria cada vez mais comum os filmes tentarem sobrepor elementos para que a tensão entre eles fosse exponencializada. Assim, um filme de terror poderia juntar lobisomens, vampiros e bruxos numa mesma produção para tentar despertar um medo “três vezes maior”. Vários longas recentes, como “A Liga Extraordinária” e “Freddy vs. Jason”, tentaram explorar essa idéia, sem muito sucesso.

“Sketches” aparenta acreditar na mesma lógica. Todos os elementos de um filme de ação pulsante estão lá, menos o contexto que lhes conferiria sentido. Em seu curto tempo, o filme torna-se cansativo e não explora bem nenhum dos vários itens postos em jogo. (Bruno Carmelo)

“Sketches” está no programa Panorama Brasil 4

2 comentários às 17:49 srizzo

Você também mataria um cachorro

O curta “Manual Para Atropelar Cachorro”, de Rafael Primo, tem estética relativamente comum: um tratamento pop em músicas, ritmo despojado e uma certa linguagem adolescente que faz o filme parecer um tanto leve. Quem visse o filme sem som poderia pensar até que se trataria de uma comédia qualquer. Mas o roteiro surpreende e nos apresenta um personagem muito especial.

Já discutimos anteriormente a tentativa de se mostrar o “homem comum” quando falamos sobre “Rapsódia Para um Homem Comum”. Naquele caso, a busca se dava através de um naturalismo que pouco convencia por tentar “embutir” complexidade em gestos gastos. O filme de Rafael Primo, por sua vez, faz outro caminho: pega uma metáfora improvável para que ela reflita o homem, tal como ele o vê.

De modo plenamente irônico, nosso protagonista bacana vai se mostrando, aos poucos, um sujeito racista, misógino, homofóbico e representante de vários outros preconceitos. E de noite, para relaxar, atropela cachorros. E, por incrível que pareça, não desperta raiva, não se torna vilão.

Trata-se de atrocidades que não costumamos ver no dia-a-dia, mas que refletem um pensamento vigente. É assustador suspendermos nosso senso moral ao não condenarmos um homem que parece estranhamente íntimo de nós. Constrói-se um bom reflexo da perda de valores e do tédio moderno através da banalização de algo que parece tão cruel. Enfim, um homem muito próximo do comum. (Bruno Carmelo)

“Manual Para Atropelar Cachorro” está no programa Panorama Brasil 8

2 comentários às 17:44 srizzo

Pelo prazer de fazer

Christian Caselli flerta com o bizarro. Durante a sessão de filmes de sua autoria, percebe-se um bizarro de inteligência única.

Em “Automusic”, o ator, diretor e roteirista capta sua própria imagem. Imagens que instigam mais pelo sonoro do que pelo visual - são diversos sons, e Caselli.

Misturando aleatoriamente tais sons e imagens temos um videoclipe, mas não pop e cheio de efeitos como vemos por aí, mas um clipe simples, sonoro, visual, e autêntico, como que se quisesse nos mostrar como é fácil fazer um curta interessante com uma idéia tão simples.

É dessa nova remessa de diretores que estão crescendo por aí, com um diferencial: faz pelo prazer de fazer e sem esperar grandes trunfos. “Câmera na mão, idéia na cabeça”, como diriam os antigos. (Larissa Paschoal)

“Automusic” está no programa Filme Livre 1 - Caselli

Adicionar comentário às 17:26 srizzo

Curto e objetivo

Isto não é uma crítica. (Larissa Paschoal)

“Isto não é um Título” está no programa Filme Livre 1 - Caselli

1 comentário às 17:21 srizzo

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