Da infantil forma de lidar com as perdas

O mesmo tecido temático está presente em “Ícarus” e “O Silêncio dos Sapos”: perda de um ente familiar. Além de ambos tratarem da morte de um membro central da família (o pai em “Ícarus” e a mãe em “O Silêncio”), há também a escolha pela apresentação dessa perda pelo olhar infantil. Os dois curtas trabalham essencialmente como as crianças lidam com o acontecimento em si e também como passam a se comportar frente à lacuna que a morte significa em suas vidas.

“Ícarus”, de Victor Hugo Borges (já conhecido pelo incrível e bem-sucedido “Historietas Assombradas para Crianças Malcriadas”), narra a perda de um pai ausente que significava sua presença em um gesto simples que garantia o conforto e o carinho diário ao filho: todas as noites, o pai deixava o rastro de sua presença no quarto do filho cobrindo-o e movendo a face de um pequeno brinquedo, um robozinho, passando-a de triste para contente. A relação pai e filho apresentada neste velar do sono realizado diariamente pelo pai reforça o caráter onírico construído pelo curta.

Há um ambiente de sonhos e de símbolos imaginativos como o fato de o pai ser um aviador. A morte do pai é marcada e sabida pelo filho através do código íntimo criado entre os dois: o boneco amanheceu triste, confirmando a ausência permanente do pai. Até que um dia, surpreendentemente, o boneco volta a sorrir. O menino então é convidado pelo pai a voar todas as noites e assim sucede todos os dias “até que crescesse e ficasse pesado para voar”. O curta é meritório de elogios pela sua forma bela e original de apresentar uma questão que não é geralmente tratada de forma tão clara e, ao mesmo tempo, com um invejável requinte de elaboração da narrativa.

“O Silêncio dos Sapos”, da venezuelana Claudia Pinto, retrata o dia seguinte de uma casa após a morte da mãe. São três filhos que lidam, cada um de sua forma, com esse espaço vazio que se instaura no lugar que antes a mãe ocupava. Dessa forma, cada um elabora um universo de significados daquele momento, construindo toda uma forma individual de lidar com as latentes lembranças e a sofrível ausência de uma mãe que é apresentada como um pilar da vida daquelas crianças.

O fato de ser o dia seguinte à morte é algo que traz uma sensação (muito bem explorada no curta) de mistura de lembranças e presença até meio fantasmagórica da mãe, que se confundem com esse novo presente instaurado na casa. Isso é marcado, por exemplo, por um plano no qual o pai recolhe da mesa o copo sujo de batom da mãe. Há ainda a dualidade de imagens entre o presente da ausência materna e uma série de vídeos caseiros feitos pela própria mãe, na qual ela interage com a família naquele mesmo ambiente da casa. Essa jogada é muito rica narrativamente, pois a sensação que se tem é exatamente a retirada de uma peça fundamental daquele ambiente, potencializando um sentimento de ausência e perda de referencial para quem acompanha as imagens intercaladas. (Marcele Guerra)

“Ícarus” está no Panorama Brasil 1; “O Silêncio dos Sapos”, no programa Latinos 4.

Adicionar comentário 31 de Agosto de 2007 às 19:22 srizzo

Repetir e diferir

Nos cursos de audiovisual, às vezes rola uma rixa saudável entre foto e som. Quem é mais importante, quem faz mais falta etc. etc. Eu poderia mentir, fazer-me de diplomático, criar uma ilusão de neutralidade, mas não: eu sou da turma do som. Não que a fotografia não seja imprescindível, mas faz quase 80 anos que o som ocupa um papel secundário no cinema. Fazendo uma generalização e um trocadilho horrorosos, pelo menos no tocante à realização do filme, a foto quase sempre fala mais alto que o som. Veja ali embaixo, na crítica de Gustavo Leitão, em que diz que “com o intuito de agilizar a produção no set de filmagem (…) o curta foi todo dublado posteriormente em estúdio”. Algo do gênero “estamos sem tempo, vai sem som mesmo!”. Além do mais, eu acho mais divertido torcer pelo azarão do que pelo favorito.

Após a projeção de estréia de “Gravidade”, Torquato Joel citou seu conterrâneo Augusto dos Anjos, poeta do carbono e do amoníaco. Deve-se imaginar, portanto, que, após seus filmes “O Verme na Alma” e “Transubstancial”, também seu mais recente trabalho tenha sido realizado sob o signo da morte e da putrefação.

O curta consiste em três planos-seqüência que três vezes descrevem a mesma situação: numa paisagem desolada, um homem nu vorazmente se alimenta. De lixo, de carne crua, de restos, não dá pra saber. Mas o som não é dos mais agradáveis.

Primeiro. Um acentuado plongée apresenta o espaço – insetos mortos, cinzas e ossadas. Tudo é cinza. O homem, nu, inclinado sobre seu alimento, bestializado, come com as mãos. Como já disse antes, o som é asqueroso. Asqueroso, mas fantasticamente editado. A espacialidade conseguida com a mixagem dos ruídos aumenta a força do belíssimo movimento de grua e situa o espectador na cena. Estamos aqui e agora.

Corte. Tudo preto. E eis que percebemos que voltamos ao princípio. (Será mesmo?). A mesma wasteland retorna, agora num movimento de grua sutilmente diferente – acompanhado pela nostálgica canção de Dalva de Oliveira, “Poeira do Chão”. “O que te dei em carinho / tu devolveste em traição / o que era um claro caminho / tornaste desolação.” O novo movimento de grua adiciona à desolação uma árvore e uma fogueira. Mas circulamos ainda ao redor desse ser humano primal. O que mudou? O que se mantém?

Terceiro. Chega de nostalgia: a trilha agora é marcada pela ambigüidade, em que batidas quase tribais co-existem com sons eletrônicos e distorcidos. Aponta-se não mais para o passado, e sim para o futuro, quão pós-apocalíptico seja. A mesma redoma suja de vidro, as mesmas ossadas, a mesma árvore, a mesma fogueira, o mesmo homem.
Sem narrativas fragmentadas, sem filtros exóticos na imagem ou efeitos estroboscópicos, “Gravidade” é um autêntico curta experimental – na medida em que investiga uma série de possibilidades de combinação de imagens e sons. Tais possibilidades, a rigor, poderiam ser estendidas ad infinitum, adicionando-se novos elementos a cada vez, e repetindo sempre a mesma cena, mas sempre de modo diferente – graças, principalmente, ao som. Em tempos de mp3, algo corriqueiro como ir ao supermercado caçar o jantar pode ganhar contornos tão diversos quanto desejarmos.

É um tanto irônico – embora nem por isso menos proposital – que, debaixo de sua pele mórbida, “Gravidade” convide a pensar sobre a vida. O que há de igual e o que há de diferente naquilo que se repete? Como emoldurar certo momento de modo a torná-lo único? Essas questões perpassam nossos cotidianos, esses dias sempre meio iguais – ainda que sem muitos vermes ou carcaças.

Como Torquato Joel começou o debate citando Augusto dos Anjos, acho adequado terminar a crítica citando outro grande poeta brasileiro, Manoel de Barros: “repetir repetir – até ficar diferente / repetir é um dom do estilo”. (Victor Gaspari Canela)

“Gravidade” integra o Panorama Brasil 6.

Adicionar comentário às 19:15 srizzo

“Metade dos alunos da FAAP mora em Alphaville”

Abaixo, entrevista com Paulinho Caruso, diretor de “Alphaville 2007 D.C.”.

Blog - Fale um pouco sobre você e por que escolheu o cinema.

Paulinho - Tenho 23 anos. Nasci na Vila Madalena, em São Paulo, onde vivo até hoje. Estudei cinema na FAAP, também aqui em São Paulo, e na Film Academy em Nova York. Acho que tenho uma tradição familiar da caricatura e dos quadrinhos e, como eu não levo muito jeito para desenhos, o cinema foi a minha forma de expressão. Na verdade, acho que faço quadrinhos em película.

Blog - Como avalia a sua participação no 18º Festival e qual a importância do evento?

Paulinho - O filme foi realizado para este festival. Eu acabei o exibindo em outros festivais, mas inicialmente o meu intuito foi passar para o grande publico de São Paulo. O filme discute questões paulistanas: habitação, urbanização, nossa condição social e a forma com que lidamos com a violência. Todas essas questões e como isso resulta na forma habitacional da cidade. Eu queria propor essa discussão pra São Paulo, mais do que em outro lugar do Brasil.

Blog - O Festival atinge um publico de universitários e profissionais da área de comunicação, além de pessoas de classe social alta. Quando você realizou o curta, teve a intenção de “cutucar” esse público? Ou de causar um sentimento de incômodo? Você pensa em passar o seu curta para um público de outra classe social?

Paulinho - Bem, o filme foi feito aqui na FAAP, que é o antro da população de Alphaville. Acredito que metade dos alunos da FAAP mora em Alphaville, era bem bizarro. Foi uma realidade com que eu tive que conviver muito. Tinha que ir para Alphaville direto para fazer trabalhos da faculdade e ver aquele mundo bizarro. Então, ele sair daqui do Festival de São Paulo nada mais é do que uma extensão de onde o filme surgiu e para as questões que ele foi criado. Eu já tenho convites de passar o filme em periferias e sem dúvida é o que eu quero neste momento. O filme tem algo de que eu gosto muito, ele discute com todas as classes e culturas. Se o cara que está assistindo não entende nada de cinema, ele vai achar o filme engraçado. É um filme que funciona para ser discutido com todos, não só com a galera que entende de cinema.

Blog – Por que você usou a frase “este mundo vai explodir”, de “O Bandido da Luz Vermelha”?

Paulinho - Acho que o Sganzerla é um visionário. Este filme foi um trabalho de conclusão de curso e envolve todas as referências discutidas nos quatro anos de faculdade. Entre elas, a mais importante foi o Sganzerla. Outra foi o Godard e também o Glauber, mas essa não entra nesta discussão. O Sganzerla tinha uma visão de que o terceiro mundo iria explodir e que eu acho que continua até hoje. A bomba só está aumentando, o pavio está ficando cada hora mais curto. Uma hora explode tudo e quem estiver de sapato não sobe.

Blog - Qual a sensação de ver o público aplaudir seu curta?

Paulinho - Acho que isso faz parte de o filme não ser chato e ao mesmo tempo ser crítico. É um filme que agrada qualquer tipo de público. Por mais que o cara viva em Alphaville e o caralho, ele vai se sentir questionado a respeito dessa opção. Acho que ele foi produzido dessa forma, eclético em formas cinematográficas, e resulta em maior aceitação do publico. Estou bem feliz, a reação até agora tem sido ótima. Em todas as sessões a que eu fui, o pessoal adorou.
(Tatiana Redígolo)

“Alphaville 2007 D.C.” está no Panorama Brasil 9.

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O gato e o canário

Imagine Guimarães Rosa subindo em árvores. Ou Machado de Assis ronronando em seus pés. E por que não Eça de Queiroz fazendo suas necessidades em caixas de areia? Escritor quando morre vira gato. Essa é a premissa de “Sete Vidas”, curta divertido sobre a vida de um gato que possui autonomia para escolher seu dono.

Para isso, mede prós e contras de sete candidatos. Entre os prós, encontram-se orgia, boa música, comida e conforto, entre outros. Contra: excesso de carinho, possibilidade de abandono e violência. Os sete possíveis donos são ligados pela solidão, que surge por diferentes formas e fatores para cada personagem: idade, loucura, arte, trabalho e até mesmo opção. O gato, também permeado pela solidão, acaba escolhendo aquele com quem mais se identifica. E que também logo possa acompanhá-lo.

“Em Flor” é outro curta que pode ser visto sob essa mesma perspectiva homem-animal-solidão. Como o gato de “Sete Vidas”, o canário de “Em Flor” possui autonomia. Talvez não a mesma autonomia racional como tem o gato, mas algo mais instintivo e natural.

Enquanto o gato escolhe seu dono, o canário é escolhido por um garoto que quer vê-lo cantar. A frustração é a linha que liga as tentativas do garoto e o silêncio do pássaro. O curta então se bloca em etapas. Faz do quintal da casa do menino e da loja de animais um eterno vaivém. A persistência da criança faz suas tentativas tornarem-se mais desesperadoras. A essa altura, todos queremos ouvir o pássaro cantar; nos identificamos com o garoto. Estamos dentro do filme. O cinema cumpre seu papel.

Silêncio. Aplausos. (Gustavo Forti Leitão)

“Sete Vidas” está no Panorama Brasil 2; “Em Flor”, no Cinema em Curso 3.

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Movimentar e não cair: dois filmes, dois planos-sequências

Nada melhor do que um plano-seqüência bem realizado, não somente do ponto de vista da técnica, evidentemente, mas da sua utilidade e pertinência dentro do discurso audiovisual proposto: a mise en scène em sintonia com a proposta narrativa, os movimentos de câmera dialogando com a atmosfera dramática – enfim, a coesão daquilo que se conta com o modo de contar. Nossa, quando isso acontece é de tirar o fôlego e encantar os olhos de qualquer espectador. Dois filmes presentes no Panorama Brasil 4 são inteiramente construídos com um longo e único plano-sequência: “Sete Minutos” de Cavi Borges, Paulo Silva e Júlio Pecly, e “Vida Maria”, de Márcio Ramos. O primeiro é um filme escuro e cru, que aborda o acerto de contas entre dois traficantes numa favela carioca, e o segundo, uma animação clara, com cores quentes, mas que aborda também uma realidade crua: a perpetuação das más condições de vida para as mulheres no sertão nordestino.

Ambos os filmes trabalham o registro realista, a idéia de fatalidade e do ciclo a ser cumprido. “Sete Minutos”, cuja duração é justamente de sete minutos, além de ser um único plano-sequência, suas imagens correspondem ao ponto de vista de PC, o protagonista, ou seja, há o uso da câmera subjetiva. Dessa forma, o espectador é colocado no lugar da personagem e a intensidade dramática das situações aumenta: quando a câmera na mão, instável por natureza, se movimenta ainda mais ao simular a corrida da personagem; quando os transeuntes assustados “saem da frente da câmera”; ou quando as demais personagens se dirigem ao traficante e, portanto, olham diretamente ao público: vemos o seu olhar, a sua expressão emocionada em close. Certamente PC está raivoso, querendo se vingar de um outro traficante, mas, assim como ele, nós não sabemos onde encontrá-lo e muito menos os riscos que nos envolvem nessa busca. O ponto de vista subjetivo em plano-sequência, aliado à instabilidade da câmera, cria uma atmosfera de suspense e tensão, fundamental para a proposta narrativa do filme.

“Vida Maria”, como já dito, é uma animação feita em um único plano, que, embora possua cores fortes, quentes e trilha sonora levemente alegre, aborda um tema melancólico e cruel: o abandono, solidão e marginalização das mulheres do sertão nordestino. Diferentemente de “Sete Minutos”, os movimentos de câmera são estáveis, como se ela estivesse numa grua. A câmera acompanha, num único espaço físico (a casa de Maria), o passar dos anos da personagem, sintetizando sua vida e a enquadrando no ciclo comum às mulheres do Sertão: crescer, casar, ter filhos, envelhecer, e sempre trabalhar - não há espaço para a atividade intelectual e tampouco para o sonho. As elipses são construídas a partir de planos próximos e, quando o quadro volta a ser geral, o contexto de Maria está diferente: ela está moça, depois grávida, depois com filhos, depois idosa. A idéia de ciclo é obtida esteticamente pelo movimento de 360 graus que a câmera realiza durante o plano-sequência do filme. Quando a câmera retorna à sua posição inicial, vemos Maria, nossa protagonista, já idosa, reprimindo sua filha, que escreve o nome no caderno sobre o parapeito da janela (a mesma atitude a mãe de Maria teve com ela no início do filme). Nesse momento, a câmera se detém sobre o caderno da menina e, conforme as páginas viram com o vento, lemos os nomes escritos com caligrafia infantil: Maria de Fátima, Maria da Conceição, Maria de Lourdes etc., representando gerações e gerações de mulheres-marias que tiveram o mesmo fim que Maria protagonista.

Esses dois filmes são exemplos de como o plano-seqüência pode ser bem empregado no cinema contemporâneo, sem que se reduza a mero instrumento de fetiche na mão de jovens realizadores, como muitas produções recentes e menos recentes já nos revelaram. (Anahí Borges)

“Sete Minutos” e “Vida Maria” estão no Panorama Brasil 4.

1 comentário às 18:44 srizzo

“Oh, my God!”

Um curta simples, engraçado e muito bem resolvido é “Lapsus”, de Juan Pablo Zaramella. O filme é inteiramente em preto-e-branco e tem apenas três minutos. Retrata uma freira que se atreve a fuçar o lado escuro (preto) da tela do cinema. A partir de então, há uma desconstrução da personagem, que vai se transformando e se decompondo. A única frase pronunciada pela personagem, “Oh, my god”, arrancou risos da platéia toda vez que foi pronunciada. A animação caiu no gosto do público e arrancou aplausos da platéia na sessão em que assistia.

“Lapsus”, além de aplausos, também ganhou o prêmio de melhor curta no festival Anima Mundi desse ano, além de alguns outros bons prêmios pelo mundo. E não é a primeira vez que Zaramella é reconhecido por suas animações. Só no Anima Mundi, ganhou também em 2002 e 2006.

A animação brinca com formas e linhas bem simples. A desconstrução da freirinha criada por Zaramella segue uma constante e entretém o espectador durante o breve tempo do curta. Os olhos da personagem podem transformar-se em rodas e linhas, e no final, voltam a ser olhos. Tudo com bastante fluidez e um tempo de ação que dão graça ao filme. (Bruno Logatto)

“Lapsus” está no programa Latinos 5.

Adicionar comentário 30 de Agosto de 2007 às 23:15 srizzo

Caso acaso

“O Ano do Porco” se desdobra nas histórias de Chang Rodrigues, rapaz que trabalha em um restaurante de comida chinesa em Havana, e dos cinco moradores do prédio no qual “La reina de Shangai”, o restaurante, se encontra no térreo.

O trabalho de Chang consiste em embrulhar biscoitos da sorte, e fazer as entregas aos clientes. Está ansioso, pois esse é um ano do porco, que, no horóscopo chinês, é um ano que traz mudanças, busca de equilíbrio e harmonia. Ao acaso, um dos biscoitos quebra-se em sua mão e sua sorte não é a que ele desejou. Sem pestanejar, Chang reescreve os dizeres e os coloca de volta em um dos biscoitos.

Sem saber, está reescrevendo também seu caminho. Ou o caminho da pessoa que quebrará o biscoito? Ou do filho dessa pessoa, ou até de sua vizinha?

Numa trama que vai e volta, a história é uma sucessão de erros (ou acertos?) ilustrados com as reviravoltas na vida das personagens.

Será que você escreve seu caminho? Quem faz o destino? A sorte de um é o azar do outro?

O filme tem atuações bem trabalhadas, e um ritmo que evidencia o roteiro intrigante. Foi realizado pela Escola Internacional de Cinema e Televisão de Cuba, com parte da equipe brasileira, e parte uruguaia. (Natalia Dangelo)

“O Ano do Porco” está no programa Latinos 1.

1 comentário às 23:12 srizzo

A bendita maldita

O rádio, desde os tempos da guerrilha guevarista, tem servido muito mais como instrumento de subversão do que de alienação e passividade. Se usado com sabedoria, ousadia e criatividade, pode causar grande barulho e realmente abalar as estruturas do convencional.
Foram esses ingredientes que deram à rádio Fluminense FM a importância histórica para toda uma geração que tinha no rock’n roll a válvula de escape de sua revolta e de seus sonhos.

“A Maldita”, documentário de Tetê Matos, através de entrevistas e documentos da época conta a história dessa fantástica rádio que acreditou no sonho dessa geração. Pode-se dizer que a Fluminense FM foi quem impulsionou, é claro que não sozinha, o rock’n roll dos anos 80, que tantas jóias raras nos deu. Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Titãs e Plebe Rude tiveram suas primeiras “demo tapes” tocadas na rádio.

Não bastasse esse mérito, a Fluminense FM foi também instrumento de mobilização e orgulho entre os moradores de Niterói, que se sentiram tão parte daquilo que tomaram dos donos e fundadores o controle sobre o seu funcionamento. Esse poder de mobilização que tem o rádio foi também retratado no cinema em “Uma Onda no Ar”, de Helvécio Ratton, que conta a história da rádio Favela de Belo Horizonte.

A Fluminense FM sobreviveu 12 anos e com certeza deve ter muitos casos pra contar. Fica no espectador que viveu essa época um gostinho nostálgico de quero mais. (Rômulo Paulino)

“A Maldita” está no Panorama Brasil 6.

Adicionar comentário às 23:05 srizzo

Sinuca de bico

Um homem simples, pobre, que sobrevive de subempregos, mas encontra sentido na vida pelo amor que tem ao cinema. Seus projetores são improvisados com material de lixo até que consegue adquirir um de 16mm. O romantismo, a criatividade e persistência fazem com que ele obtenha as películas e as exiba a preços populares à sociedade carente que o circunda, e da qual faz parte: sua comunidade. Essa é a história do pernambucano Zé Sozinho, abordada com sensibilidade e leveza por Adriano Lima em seu curta-metragem documental “Cine Zé Sozinho”.

Algo deve ser dito: depois do prestígio nacional e internacional do curta-metragem documental “Zagati”, dirigido por Nereu Cerdeira e Edu Felistoque em 2002, ficou difícil abordar esse tema de forma original. “Zagati” imortalizou esse mesmo drama através da sua linguagem poética, que sobrepõe momentos realistas e crus com outros líricos e fantasiosos; imagens pictóricas e trilha sonora instrumental criam o tom dramático da obra. Se Adriano Lima conseguiu originalidade no desafio de contar uma história semelhante à de “Zagati”? Creio que não. Mas conseguiu, certamente, realizar um filme bonito, sensível, bem-humorado e nostálgico, de homenagem ao cinema e à personagem de Zé Sozinho.

“Cine Zé Sozinho” possui uma estrutura documental comum: pontuada por depoimentos do protagonista e de seus conhecidos, e inserções de cartazes e imagens de filmes clássicos já projetados por Zé Sozinho em sua comunidade. Essas inserções emocionam o público que revê cenas de “Tarzan”, de chanchadas com Oscarito e Grande Otelo, westerns, Vicente Celestino em “O Ébrio”, assim como cartazes de filmes da Vera Cruz e do Mazzaropi, por exemplo.

Como elemento positivo em qualquer documentário, a personagem é interessante, espontânea, curiosa. Zé Sozinho, hoje com seus 70 anos mais ou menos, diz em determinado momento que sempre se achou parecido com o astro de Hollywood dos anos 50 – Burt Lancaster. O público cai na gargalhada. Enfim, ainda que tenha recorrido a elementos triviais de construção do discurso documental, Adriano Lima realizou um filme sincero que conseguiu tocar o seu público. (Anahí Borges)

“Cine Zé Sozinho” está no Panorama Brasil 6.

3 comentários às 22:58 srizzo

Cinema em Curso no seu curso

Sou um entusiasta do formato curta-metragem e, mais especificamente, dos curtas produzidos por alunos.
Gosto do frescor, da liberdade e da experimentação provocada por pessoas que não estão somente preocupadas em vender seu produto, mas que querem contar uma história, partilhar momentos e vivências.

Não irei me atentar a nenhum curta em específico, mas sim ao programa Cinema em Curso e à sua importância para a formação do futuro cineasta brasileiro.

Ao conversar na quinta-feira passada com Ana, outra participante deste blog, disse a ela que minha principal ocupação seria assistir à programação do Cinema em Curso, porque ela muito me agrada.

Evidente que os filmes têm problemas de qualidade técnica, no entanto, de um modo geral, mostram como andam as idéias dos estudantes de audiovisual no Brasil e é fundamental analisar essas produções para começar a entender os possíveis rumos que o cinema brasileiro irá tomar.

Digo isso porque temos pouco espaço real para a divulgação da produção de alunos e esta fica, na sua grande maioria, reservada às próprias faculdades, privando a população em geral de prestigiar trabalhos feitos com muita originalidade e com poucos recursos. Tal característica parece-me enriquecer essas obras, pois elas apresentam-se muito sinceras em seus conteúdos e na forma como são comunicados.

Por isso, recomendo que todos assistam aos filmes do Cinema em Curso para que exista a possibilidade de um maior reconhecimento da produção audiovisual de jovens cineastas. Para encontrar o seu caminho, eles trilham fronteiras muito interessantes para o cinema nacional que, apesar de cada vez mais efervescente, ainda precisa achar um curso de caminhada mais efetivo e afetivo. (Maurício de Carvalho)

Cinema em Curso tem cinco programas no 18º Festival.

1 comentário às 22:53 srizzo

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