As coisas simples da vida, como uma mesa de bar
Enviado em 31 de Agosto de 2009
Publicado por srizzo
Parece coincidência, mas dois curtas realizados por alunos da Unisinos (RS) me chamaram particular atenção: “A Dimensão do Reflexo”, de Rafael Fanton Onzi, e “A Saideira”, de Diego Cavalcante. É proveitoso compará-los e traçar alguns paralelos.
O primeiro é muito esforçado: repleto de efeitos especiais e animações que, num contexto como o universitário, historicamente insuficiente em recursos (e olha que estou sendo razoável com as palavras), acaba se sobressaindo. O trabalho é bem-feito, exaustivo, imagino, mas isso não lhe paga indulgência. O diretor esqueceu que, para os efeitos funcionarem adequadamente, o conjunto da obra também tem funcionar. O resultado é uma história fraca, pretensiosa demais e sem densidade, em que os efeitos sobrepujam a narrativa e aparecem como “pão e circo” para distrair a percepção do espectador de todo o resto.
As interpretações, no mínimo, constrangem; poderiam até funcionar, a muito custo, num telejornal. Mas a culpa não é toda dos atores, que, guardadas as devidas proporções, conseguem até tirar leite de pedra de algumas falas que, além de inverossímeis e pouco plausíveis, não têm continuidade nem carga dramática. Estão absolvidos.
Poderíamos absolver Onzi levando em conta essa deficiência, mas, além de diretor, ele é o roteirista e, querendo assumir a postura das 1001 utilidades, compôs a trilha sonora, mas nem nisso conseguiu acertar. Juro que não é implicância nem desejo de afronta, mas já de início a trilha incomoda, soa desajustada, muito infantiloide. Parece ter saído de uma propaganda de lápis de cor ou pró-instituições infantis de caridade.
Já o segundo filme, muito menos ambicioso nas pretensões, econômico nos cenários e nos planos, é mais bem-sucedido. A direção é segura e as interpretações são precisas, permitindo a identificação com as personagens logo de início. Os diálogos são simples, nada da impostação ou da preocupação formal que vemos no primeiro curta, e por isso funcionam muito melhor. O diretor soube usar os artifícios técnicos articulados à narrativa, e não isolados e superiores a ela.
Alguns podem querer relativizar as coisas; afinal, “A Dimensão do Reflexo” é uma criação original, ao passo que “A Saideira” é baseado num conto. O segundo tratava com atores jovens, mais fáceis de lidar do que um ator mirim, como o primeiro. Claro que “A Saideira” é tributário do conto, mas isso não vem ao caso. O fato é que qualquer diretor, antes de iniciar uma produção, trabalha com um infinito conjunto de possibilidades. O mais talentoso não é aquele que faz as opções mais ousadas, mas o que sabe trabalhar com melhor articulação dentro de seu universo de escolhas.
Por isso, “A Saideira” transforma a ausência de recursos em um benefício estético – como faziam os neo-realistas italianos. É uma ode à simplicidade que esmaga a pretensão abusada. (João Paulo Putini)
“A Dimensão do Reflexo” esteve no Cinema em Curso 1; “A Saideira”, no Cinema em Curso 3.